Pesquisar no Google:

Pesquisa Personalizada

Pesquisar no Blog:

Carregando...
Pesquisa personalizada

Postagens Populares:

terça-feira, 29 de agosto de 2006

29 DE AGOSTO


29 de Agosto - Dia Nacional de Combate ao Tabagismo

Cigarro faz mal até pra quem não fuma:

No Dia Nacional de Combate ao Fumo (29 de agosto) de 2006, o Instituto Nacional de Câncer, INCA, órgão do Ministério da Saúde responsável pela política de controle do câncer no País, aproveita para fazer um alerta: cigarro faz mal até para quem não fuma. As crianças são um dos grupos mais atingidos. Elas correm, por exemplo, um risco cinco vezes maior de sofrerem morte súbita sem razão específica. O tabagismo passivo é a terceira maior causa de morte evitável no mundo, superada apenas pelo tabagismo ativo e o consumo excessivo de álcool.
“Se os adultos soubessem o que sofrem as crianças expostas à fumaça do cigarro, nunca mais fumariam perto delas”, observa Luiz Antonio Santini, diretor-geral do Instituto Nacional de Câncer. Quando a mãe fuma depois que o bebê nasce, este sofre imediatamente os efeitos do cigarro. Segundo Santini, durante o aleitamento, a criança recebe nicotina através do leite materno. “Ela fica intoxicada com a nicotina, podendo apresentar agitação, vômitos, diarréia e taquicardia, principalmente em mães fumantes de 20 ou mais cigarros por dia”, avisa.
Em recém-nascidos, filhos de mães fumantes de 40 a 60 cigarros por dia, observaram-se resultados mais graves como palidez, cianose (coloração azulada da pele e membranas mucosas devido à falta de oxigenação no sangue), taquicardia e crises de parada respiratória, logo após a mamada. Em crianças de zero a um ano de idade, que vivem com fumantes, há uma maior prevalência de problemas respiratórios em relação àquelas cujos familiares não fumam. Além disso, quanto maior o número de fumantes no domicílio, maior o percentual de infecções respiratórias, chegando a 50% nas crianças que vivem com mais de dois fumantes em casa.
Estudos também mostram que crianças com sete anos de idade, nascidas de mães que fumaram 10 ou mais cigarros por dia durante a gestação, apresentam atraso no aprendizado quando comparadas a outras crianças: “elas são mais lentas para desenvolverem suas habilidades. Nota-se um atraso de quatro meses para a leitura e cinco, para a matemática, por exemplo”, explica Tânia Cavalcante, chefe da Divisão de Controle do Tabagismo da Coordenação de Prevenção e Vigilância do INCA.
A fumaça aspirada pelo não-fumante apresenta níveis oito vezes maiores de monóxido de carbono, o triplo de nicotina, e até cinqüenta vezes mais substâncias cancerígenas que a fumaça tragada. A fumaça que sai da ponta do cigarro contém, em média, três vezes mais nicotina e monóxido de carbono, e até cinqüenta vezes mais substâncias cancerígenas do que a fumaça que entra pela boca do fumante depois de passar pelo filtro do cigarro.
Pesquisas nacionais e internacionais indicam que os fumantes passivos têm um risco 23% maior de desenvolver doença cardiovascular e 30% mais chances de ter câncer de pulmão. Crianças expostas à fumaça do tabaco podem desenvolver doença cardiovascular, quando adultas, infecções respiratórias e asma brônquica. Os filhos de gestantes que fumam apresentam o dobro de chances de nascer com baixo peso e 70% de possibilidades de sofrer um aborto espontâneo; 30% podem morrer ao nascer.
Fumaça Tabagística AmbientalOs dois componentes principais da poluição tabagística ambiental (PTA) são a fumaça inalada pelo fumante, chamada de corrente primária, e a fumaça que sai da ponta do cigarro, a corrente secundária. Esta última é o principal componente da PTA, formada em 96% do tempo total da queima dos derivados do tabaco.
Algumas substâncias, como nicotina, monóxido de carbono, amônia, benzeno, nitrosaminas e outros carcinógenos podem ser encontrados em quantidades mais elevadas na corrente secundária. Isto porque não são filtrados e também devido ao fato de que os cigarros queimam em baixa temperatura, tornando a combustão das substâncias incompleta.
Análise feita pelo INCA, em 1996, com cinco marcas de cigarros comercializados no Brasil, verificou-se níveis duas vezes maiores de alcatrão, 4,5 vezes maiores de nicotina e 3,7 vezes maiores de monóxido de carbono na fumaça que sai da ponta do cigarro em relação à fumaça exalada pelo fumante.
Os níveis de amônia na corrente secundária chegaram a ser 791 vezes superiores que na corrente primária. A amônia alcaliniza a fumaça do cigarro, contribuindo para a maior absorção de nicotina pelos fumantes, e aumentando a dependência da droga. Este também é o principal componente irritante da fumaça do tabaco.
Materiais da Campanha de 2005

sexta-feira, 18 de agosto de 2006

ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA


Texto 07

Antropologia Filosófica

Por: Jorge Schemes

ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA DE PLATÃO

Para Platão o homem é corpo e alma, sendo a alma o que realmente somos e o corpo como se fosse apenas algo material que nos segue. A antropologia filosófica de Platão sugere que o verdadeiro homem é um ser imortal, cujo nome próprio é a alma, que entra na comunhão dos deuses. O homem é uma união do corpo e da alma, sendo o corpo considerado apenas um veículo da alma. A alma é propriamente o homem, sendo o corpo uma sombra. Mas esta união é infeliz, pois o corpo serve como uma prisão para a alma, e ela só atingirá a verdade do que busca quando se desprender do corpo. Platão repete a expressão de Pitágoras que considerava o corpo como o túmulo da alma.
Segundo o pensamento de Platão, a origem da alma está no Demiurgo, todas as almas humanas são feitas pelo próprio Demiurgo, o qual criou todas individualmente, as entregou para o seu destino seqüencial, aos “deuses criados”, à terra e aos planetas, para introduzirem a alma na existência, revesti-la de um corpo, nutrir o homem e deixá-lo crescer para depois recebê-lo de novo quando deixar esta vida. Para Platão a alma é uma substância invisível, imaterial, espiritual. Só quando é entregue ao instrumento do tempo é que ela se une ao corpo, e só então nascem as percepções. Em sua obra “A República”, Platão define três partes da alma: a alma racional ou espiritual que se manifesta no pensamento puro e na contemplação supra-sensível; a alma irascível à qual pertencem as nobres excitações como a cólera, a cobiça, a coragem e a esperança; e alma concupiscível, onde tem a sua sede os instintos da nutrição e do sexo, como o prazer e o desprazer.
Todo o interesse de Platão pelo homem se concentra, portanto, na alma, e a sua antropologia é essencialmente uma psicologia.


ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA DE SÓCRATES

Depois de algum tempo seguindo os ensinos dos naturalistas, Sócrates passou a sentir uma crescente insatisfação com o legado desses filósofos e passou a se concentrar na questão do que é o homem – ou seja, do grau de conhecimento que o homem pode ter sobre o próprio homem. Enquanto os filósofos pré-socráticos, chamados de naturalistas, procuravam responder à questões do tipo: “ O que é a natureza ou o fundamento último das coisas?”; Sócrates, por sua vez, procurava responder à questão: “ O que é a natureza ou a realidade última do homem?”
A resposta a que Sócrates chegou é a de que o homem é a sua alma – psyché, por quanto é a sua alma que o distingue de qualquer outra coisa, dando-lhe, em virtude de sua história, uma operante ou a consciência e a responsabilidade intelectual e moral. Esta colocação de Sócrates posteriormente exerceu e ainda exerce uma influência profunda em toda a tradição européia até hoje. Ensinar o homem a cuidar de sua própria alma seria a principal tarefa a ser desempenhada por Sócrates e por todos os filósofos autênticos. Sócrates acreditava ter recebido essa tarefa por Deus, dizia que era a ordem de Deus. Procurava persuadir a jovens e velhos a cuidar não só do corpo, nem exclusivamente das riquezas ou de qualquer outra coisa mais fortemente do que da alma, antes de qualquer coisa. Segundo ele, é do aperfeiçoamento da alma que nascem as riquezas e tudo o que mais importa ao homem e ao Estado.
Para Sócrates o homem usa o seu corpo como instrumento, o que significa que a essência humana utiliza o instrumento, que é o corpo, não sendo, pois, o próprio corpo. Assim, para a pergunta: “o que é o homem?”, não seria lógico responder que é o seu corpo, mas sim que é “aquilo que se serve do corpo”, que nada mais é do que a psyché ou a alma. Na visão de Sócrates, esta mesma alma seria imortal e fadada a reencarnar tantas vezes fosse necessárias até a alma se aperfeiçoar de tal forma que não precisasse mais voltar a este planeta.


ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA DE ARISTÓTELES

Aristóteles diverge de Platão quando afirma que todo o ser vivo tem uma só alma e que o corpo humano não é obstáculo, mas instrumento da alma racional, que é a forma do corpo. Para Aristóteles o homem é uma unidade substancial de alma e de corpo, em que a primeira cumpre as funções de forma em relação a matéria, que é constituída pelo segundo. O que caracteriza a alma humana é a racionalidade, a inteligência, o pensamento, pelo que ela é espírito ou alma racional. Mas a alma humana desempenha também as funções da alma sensitiva e vegetativa (alma sensitiva é precisamente a sensibilidade e a locomoção, e alma vegetativa é a nutrição e a reprodução), sendo superior a estas.
Assim, a alma humana, embora sendo uma e única, tem várias faculdades e funções, porquanto se manifesta efetivamente com atos diversos. Segundo a visão aristotélica, as faculdades fundamentais do espírito humano são duas: teorética e prática, cognoscitiva e operativa, contemplativa e ativa. Cada uma destas se divide em dois graus: sensitivo e intelectivo, considerando que o homem é um ser racional, quer dizer, não é um espírito puro, mas um espírito que anima um corpo animal.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Hirschberger, Johanes. História da Filosofia na Antiguidade. Ed. Herber, São Paulo, 1965.
Platão. Coleção Os Pensadores. Vol. IV, Ed. Abril, São Paulo, 1987.
Reale, Giovanni & Antiseri, Dario. História da Filosofia. Vol. I, Ed. Paulus, São Paulo, 1999.
Sócrates. Coleção Os Pensadores. Vol. V, Ed. Abril, São Paulo, 1988.

REFLEXÕES SOBRE ANTROPOLOGIA RELIGIOSA


Texto: 06

Reflexões Sobre Antropologia Religiosa

Por: Jorge schemes

A antropologia religiosa estuda o ser humano segundo as ciências da religião, enquanto ser aberto, que busca e acolhe o transcendente usando o método científico e trabalhando com as fontes das matrizes religiosas. Dentre as tarefas da antropologia religiosa desataca-se o estudo do ser humano situado na existência sociopolíticoeconômica. Isso envolve dimensões do ser humano, tais como liberdade, sofrimento, mal, política, cultura, ecologia, trabalho, etc., dentro de um contexto moderno com referências à pós-modernidade. Alguns temas chaves da antropologia religiosa são a origem do homem (criação), como ser nativo (original), na atualidade, na história e como ser peregrino em seu destino como ser escatológico (finalidade, realização). Assim, dentro da antropologia religiosa o estudo do ser humano envolve sua origem, sua atualidade e seu destino; sua criação, sua história e sua finalidade ou realização; sua essência enquanto ser nativo, enquanto ser em progresso e enquanto ser escatológico. Há dois aspectos na dimensão pessoal e social que envolve o Ser: o ser humano natural e otimista e o ser desumano pessimista e realista. Enquanto ser pessoa ele está voltado para o interior e enquanto ser comunidade está voltado para a sociedade, para a cultura, política e história. Se torna inegável que este Ser é um nó de relações. Há ondas de relações construídas pelo ser humano que estão direcionadas no sentido horizontal e vertical. O nó de relações se dá no sentido horizontal com o mundo (cosmos) envolvendo ciência, técnica, trabalho, meio-ambiente, mas também envolve relações intersubjetivas e interpessoais envolvendo aspectos como sexualidade, política, sociedade, cultura. No sentido vertical, o nó de relações construído pelo Ser ocorre nas dimensões do ego e do transcendente. Há uma relação de profundidade na busca por si mesmo, pelo ser pessoa, pela liberdade, pelo humano no ser na relação corpo e espírito. Por outro lado há uma relação de busca pelo mistério, pelo oculto que se dá na dimensão da fé, da religiosidade e da religião. Todos estes aspectos fazem parte das ondas de relações construídas pelo ser humano para dar sentido a sua realidade.
Todavia, o ser humano pode cortar relações em qualquer eixo dimensional ou até mesmo romper com todos. O ser humano desumano é aquele que corta relações em qualquer um dos eixos ou dimensões. O ser humano pronto e acabado não existe, pois o humano no ser está sempre inserido num processo dialético, ou seja, se fazendo, se desfazendo e se refazendo. Todavia, há um forte peso cultural nesse processo. Por exemplo, a cultura judaico-cristã trabalha com o princípio dualista da distinção, enquanto por outro lado a cosmovisão holística é integradora e defende um movimento interdisciplinar. A ciência parte do princípio da divisão para o controle (divide para controlar), isso caracteriza o que conhecemos como especialização, que na minha opinião significa saber cada vez mais a respeito de cada vez menos. Na cosmovisão judaico-cristã significa distinguir, pois a fé judaico-cristã vem do conceito do Deus criador distinto. Essa concepção não desfaz a inter-relação e a integralidade. As grandes religiões do Oriente não têm um Deus criador distinto, pois para eles tudo é uma realidade só caindo na concepção panteísta de Deus, ou seja: tudo é deus e deus é tudo. Nesta concepção não distinção, mas uma relação harmoniosa de interdependência (holismo). Quando se trabalha a distinção corre-se o risco de dividir as coisas, e é isso que caracteriza a ciência moderna. O método cientifico vai distinguindo as coisas e corre o risco de perder a cosmovisão integradora, global. René Descartes escreveu: “penso, logo existo”, em seu método defende a idéia do ser humano psicofísico (extensão pensante e extensão corpórea), assim, o mundo é algo para ser pensando, quantificado, medido, etc. a ética que está subentendida na declaração de descartes é que eu sou, mas o outro não é. Desta maneira o mundo pós-moderno capitalista e neoliberal justifica o individualismo em contraposição a alteridade como fundamentação ética, e promove no inconsciente coletivo as raízes da discriminação e da exclusão.
O mesmo ser humano que é um nó de relações não é isolado, mas forma uma rede onde cada um de nós é um dos nós. Tudo que ocorre na rede é solidário (solidariedade incondicional no bem o no mal). Todavia, quando um nó da rede fica solto ou desamarrado, a rede fica solta e frágil. Manter a rede firme depende de cada um de nós e de todos. A solidariedade do bem é estruturante, e a do mal é desestruturante. Nós somos mais bem integrados no bem (união solidária) do que no mal, assim, só pode existir o mal porque a rede está estruturada no bem. Essa condição social solidária é mais radicada no bem do que no mal, porém o mal agride mais porque afeta o bem natural e comum da constituição da rede e de cada nó (ser humano). Nesse contexto está situada a importância da antropologia religiosa. Enquanto área do conhecimento, a ciência da religião destaca-se como orientadora no processo de contato com as grandes tradições e orientações culturais do nosso tempo (cada povo cria suas grandes orientações culturais). Vejamos as quatro grandes orientações culturais de nosso tempo histórico:
1. Subjetivismo (individualismo): trabalha a partir de si como indivíduo. No passado, algumas culturas pensavam de forma coletiva e não individual (eu). No campo político-filosófico destaca-se o neoliberalismo, o economicismo e o materialismo. No âmbito religioso destaca-se a religião individualizada. Todavia, quando o eu está fora da constituição da rede acaba contribuindo para a criação de uma sociedade fragmentada e regida pelo princípio da anomia (sem lei). As quatro grandes orientações culturais exacerbam (levam a extremos) as quatro grandes dimensões do nó de relações, ou seja: do ser humano com o mundo, com os outros, consigo mesmo e com o transcendente.
2. Economicismo (centrado no ter, no concentrar, no reter as coisas): Trabalha com o princípio da coisificação, da centralização nas coisas. As relações valem como se fossem coisas, há uma coisificação das relações. O princípio ético é pautado pelo lema: usar pessoas e amar as coisas. O Mercado é tratado como um ser vivo autônomo que, segundo Adam Smith, se faz por si mesmo. Há uma identificação do Mercado como um ser pessoal (animismo) o qual chega a ser tratado como se fosse um deus, um ídolo da racionalidade de uma sociedade tecnocrata. As pessoas se entregam ao mercado financeiro como oferendas de produção e consumo. Há uma marginalização intencional, um empobrecimento dos pobres e uma falta de participação ativa e crítica nos processos políticos. Outras evidências ficam por conta da desigualdade social, perda da soberania nacional e dependência do mercado financeiro, perda de valores.
3. Socialismo no sentido de massificação: há grandes aglomerações de pessoas no mundo pós-moderno. Há um forte desejo de igualdade e paz universal. O mundo é visto como uma aldeia universal.
4. Pluralismo religioso: no século XXI as pessoas ainda estão ansiosas pelo sagrado, pelo transcendente. Algumas vezes esse sagrado é comercializado e coisificado. Há uma cosmovisão inter-religiosa interdependente e integradora. Busca-se a unidade na pluralidade e pluralidade na unidade.
No contexto da cultura judaico-cristã, percebemos a infiltração do dualismo antropológico (matéria/espírito; corpo/alma; emoção/razão; etc.). Há uma forma dividida do pensamento crítico que não está presente e não faz parte do pensamento oriental. A pergunta que precisa ser feita é: por que o ocidente tem esta forma de pensamento e esta prática dualista? A infiltração do dualismo antropológico no pensamento ocidental teve influência da filosofia platônica, principalmente através de Santo Agostinho no contexto da tradição religiosa de matriz cristã. Para Platão a filosofia tinha uma dimensão dualista entre o mundo das idéias, verdadeiro, repleto de conhecimento (episteme) e o mundo terreno, onde as coisas eram cópias e sombras, repleto de opiniões (achismo). Esta filosofia estava em voga no início do cristianismo por meio de Plotino que trabalhava o neoplatonismo. Fundamentado em Platão, Agostinho colocou o conteúdo cristão numa linguagem filosófica e cultural platônica. Assim como Platão ele também defendia a idéia do dualismo: céu/terra; Deus/homem; etc. Agostinho defendia a existência de dois mundos, um celestial, onde estavam as idéias, o divino e as luzes, e outro terrestre, o qual era cópia e sombra da realidade celestial. Deste modo o cristianismo vai sendo marcado por uma divisão dualista da realidade (espírito/matéria; alma/corpo; Deus/mundo; razão/emoção; igreja e religião/sociedade e política; etc.; este é o dualismo que está presente em nosso mundo hoje. Porém vale lembrar que há uma diferença entre ética e ontologia dualista. Ética envolve o fazer o bem ou o mal, enquanto ontologia envolve o estudo do ser onde o corpo é mau e alma é boa.
Outra influência sentida em nosso dia é da filosofia cartesiana (René Descartes) que se faz presente na ciência moderna. “Eu penso, logo sou”, alegava Descartes. Em seu conceito psicofísico do ser humano havia uma lógica subentendida pela cultura ocidental européia, e essa lógica tinha uma fundamentação ética que justificaria verdadeiros genocídios de outros seres humanos no continente americano. No dualismo cartesiano da Res Cogitans (sujeito pensante, o ser humano, europeu, homem e sacerdotes), e da Res Extensa (objeto material, mundo, outros povos, mulher e povo) os europeus encontraram uma justificativa válida para validar seu projeto de morte para os povos que habitavam o continente americano.
Hoje, na sociedade cultural pós-moderna, há tentativas de superação do dualismo platônico e do dualismo cartesiano. Uma delas é de justaposição, onde se justapõe uma coisa à outra. Outra tentativa é dialética (inversão), onde se põe valor naquilo que antes não valia, por exemplo: o corpo é valorizado e o espírito não. E uma terceira tentativa de superação é de inclusão das diferenças, onde somos seres corporais e espirituais que temos liberdade e responsabilidade. Neste contexto destaca-se o diálogo inter-religioso, o qual tem por objetivo incluir as diferenças e as minorias sob o princípio do diálogo e da reverência pautado pela ética da alteridade em contraposição a ética cartesiana.
Algumas teorias contemporâneas causam desconfiança sobre a validade da antropologia religiosa, dentre elas a que defende o surgimento da religião como resultado de causas psicológicas ou como determinações do meio sócio-econômico, e não como uma relação do homem com o divino. A antropologia religiosa está fundamentada nas relações do homem com o divino na dimensão do eu e do outro como pólos que se complementam. Busca os fundamentos das tradições culturais e da experiência religiosa, ou das relações do homem com o divino, que estão presentes na inter-relação entre o eu, o outro e o sagrado (que se manifestam na comunidade). A antropologia religiosa busca uma interpretação aberta das tradições culturais e experiências religiosas fazendo uma análise antropológica das manifestações religiosas. Estas manifestações buscam a universalidade do sagrado e causam uma classificação. Contudo, são nestas manifestações que a antropologia religiosa busca a essência da religião. Esta essência envolve vários aspectos como objetos de análise e reflexão, ou seja: fatores psicológicos; sistema religioso; crenças; teologia; experiência existencial com o divino; fenomenologia antropológica; descomprometimento crítico sem estabelecer juízo de valor; coletas de dados empíricos, históricos, culturais, econômicos, políticos e sociais; purificação de conceitos; ciências humanas; linguagem e símbolos próprios, experiências religiosas próprias a nível individual e coletivo. Neste sentido o cientista da religião não pode colocar na frente de seu objeto de estudo e pesquisa a sua própria fé. Se isso ocorrer ele será um catequista ou proselitista. Para evitar este erro é fundamental entender que cultura e religião estão entrelaçadas, interligadas. Uma influencia a outra, são justapostas porque ambas se influenciam e são influenciadas. Também é fundamental nortear o trabalho da antropologia religiosa pela ética que mais dá conta das relações humanas, ou seja; a ética da alteridade.

HISTÓRIA DA ANTROPOLOGIA PARTE III


Texto 05

História da Antropologia Parte III

A Antropologia funcionalista:
O Funcionalismo inspirava-se na obra de Durkheim. Advogava um estreito paralelismo entre as sociedades humanas e os organismos biológicos (na forma de evolução e conservação), porque em ambos a harmonia dependeria da interdependência funcional das partes. As funções eram analisadas como obrigações, nas relações sociais. A função sustentaria a estrutura social, permitindo a coesão, fundamental, dentro de um sistema de relações sociais.
A Antropologia estrutural:
A Antropologia Estrutural nasce na década de 40. Seu grande teórico é Claude Lévi-Strauss, e seu debate se centraliza na idéia de que existem regras estruturantes das culturas presentes na mente humana, e que estas regras constroem pares de oposição para organizar o sentindo. Para tecer seu debate teórico, Lévi-Strauss se apoiou em duas fontes principais: a corrente psicológica criada por Wilhelm Wundt e o trabalho realizado no campo da lingüística, por Ferdinand de Saussure, denominado de Estruturalismo. Influenciaram-no, ainda, Durkheim, Jakobson (teoria linguística), Kant (idealismo) e Marcel Mauss.
Idéias centrais:
Para a Antropologia Estrutural as culturas se caracterizam como sistemas de signos partilhados e estruturados, por princípios que estabelecem o funcionamento do intelecto humano que os originam. Em 1949, com a publicação por Lévi-Strauss de “As estruturas elementares de parentesco”, na qual analisa os aborígines australianos, em particular, seus sistemas de matrimônio e parentesco. Nesta análise, Lévi-Strauss demonstra que as alianças são mais importantes para a estrutura social que os laços de sangue. Termos como exogamia, endogamia, aliança, consangüinidade passam a fazer parte das abordagens etnográficas. Claude Lévi-Strauss piublicou as seguintes obras: As estruturas elementares do parentesco - 1949. Tristes Trópicos - 1955. Pensamento selvagem - 1962. Antropologia estrutural - 1958. Antropologia estrutural dois - 1973. O cru e o cozido - 1964. O homem nu - 1971.
O particularismo histórico:
Também conhecida como Culturalismo, esta escola estadunidense, defendida por Franz Boas, rejeita, de maneira marcante o evolucionismo que dominou a antropologia durante a primeira metade do século XX.
Principais idéias:
A discussão desta corrente se detém na idéia de que cada cultura tem uma história particular, e a difusão cultural pode se desenvolver para variadas direções. acontecer em qualquer direção. Cria-se o conceito de relativismo cultural, pensando a evolução, possível, também como fenômeno que pode se dar do estado mais complexo para o simples.
A Escola de Cultura e personalidade:
Criada por estudiosas estadunidenses discípulas de Franz Boas, influenciadas pela Psicanálise e pela obra de Nietzche, concebia a cultura como detentora de uma “Personalidade de base” , partilhada por todos os membros da mesma. Estabelecia uma tipologia cultural, haveria culturas: dionisíacas (centradas no êxtase), apolíneas (estruturadas não desejo de moderação); pré-figurativas, pós-figurativas, co-figurativas.
A Antropologia interpretativa:
Com cerca de vinte livros publicados, Clifford Geertz é, depois de Claude Lévi-Strauss, provavelmente, o antropólogo cujas idéias causaram maior impacto após a segunda metade do século 20, não apenas para a própria teoria e prática antropológica, mas também fora de sua área, em disciplinas como a psicologia, a história e a teoria literária.Considerado o fundador de uma das vertentes da antropologia contemporânea - a chamada Antropologia Hermenêutica ou Interpretativa.
Geertz, graduado em filosofia e inglês, antes de migrar para o debate antropológico, obteve seu PhD em Antropologia em 1956 e desde então conduziu extensas pesquisas de campo, nas quais se originaram seus livros, escritos essencialmente sob a forma de ensaio. Suas principais pesquisas ocorreram na Indonésia e no Marrocos. Foi o descontentamento com a metodologia antropológica disponível à época de seu estudo, para Geertz, excessivamente abstrata e de certa forma distanciada da realidade encontrada no campo, que o levou a elaborar um método novo de análise das informações obtidas entre as sociedades que estudava. Seu primeiro estudo tinha por objetivo entender a religião em Java.
No final, foi incapaz de se restringir a apenas um aspecto daquela sociedade _que ele achava que não poderia ser extirpado e analisado separadamente do resto, desconsiderando, entre outras coisas, a própria passagem do tempo. Foi assim que ele chegou ao que depois foi apelidada de antropologia hermenêutica. Sua tese principia na defesa do estudo de "quem as pessoas de determinada formação cultural acham que são, o que elas fazem e por que razões elas crêem que fazem o que fazem".
Uma das metáforas preferidas, para Geertz, para definir o que faz a Antropologia Interpretativa é a da leitura das sociedades como textos ou como análogas a textos. A interpretação se dá em todos os momentos do estudo, da leitura do "texto" cheio de significados que é a sociedade à escritura do texto/ensaio do antropólogo, interpretado por sua vez por aqueles que não passaram pelas experiências do autor do texto escrito . Todos os elementos da cultura analisada devem ser entendidos, portanto, à luz desta textualidade, imanente à realidade cultural.
Idéias centrais:
A Antropologia Interpretativa analisa a cultura como hierarquia de significados, pretendendo que a etnografia seja uma “descrição densa”, de interpretação, escrita e cuja análise é possível por meio de uma inspiração hermenêutica. É crucial a leitura da leitura que os “nativos” fazem de sua própria cultura
Outros movimentos:
Outros movimentos significativos, na história do século XX, para a teoria Antropológica foram as escolas Cognitiva, Simbólica e Marxista.
Debates pós-modernos:
Na década de 80, o debate teórico na Antropologia ganhou novas dimensões. Muitas críticas a todas as escolas surgiram, questionando o método e as concepções antropológicas. No geral, este debate privilegiou algumas idéias: a primeira delas é que a realidade é sempre interpretada, ou seja, vista sob uma perspectiva subjetiva do autor, portanto a antropologia seria uma interpretação de interpretações. Da crítica das retóricas de autoridade clássicas, fortemente influenciada pelos estudos de Foucault, surgem metaetnografias, ou seja, a análise antropológica da própria produção etnográfica. Contribuiu muito para esta discussão a formação de antropólogos nos países que então eram analisados apenas pelos grandes centros antropológicos.
Idéias centrais:
• Privilegia a discussão acerca do discurso antropológico, mediado pelos recursos retóricos presentes no modelo das etnografias.
• Politiza a relação observador-observado na pesquisa antropológica, questionando a utilização do "poder" do etnógrafo sobre o "nativo".
• Crítica dos paradigmas teóricos e da “autoridade etnográfica” do antropólogo. A pergunta essência é: quem realmente fala numa etnografia? O nativo? Ou, o nativo, visto pelo prisma do etnógrafo?
• A etnografia passa a ser desenvolvida como uma representação polifônica da polissemia cultural, e nela deveriam estar presentes, claramente, as vozes dos vários informantes.

HISTÓRIA DA ANTROPOLOGIA PARTE II


Texto 04

História da Antropologia Parte II

A Antropologia Evolucionista:
Demarcada pela discussão evolucionista, a antropologia do Século XIX privilegiou o Darwinismo Social, que pensava a sociedade européia da época como o apogeu de um processo evolucionário, do qual as sociedades aborígines eram tidas como exemplares "mais primitivos". Esta visão tomava como princípio o seu próprio modelo de “civilização”, para classificar, julgar e, posteriormente, justificar a dominação de outros povos. Esta maneira de pensar o mundo, a partir de sua concepção civilizatória, valorizando-a como superior, ignorando as diferenças entre os povos, tidos como inferiores recebe o nome de etnocentrismo.
Etnocêntrica, a concepção européia de homem se atribui o valor de “civilizado”, chegando a afirmar que os outros povos, como os das Ilhas da Oceania estavam “situados fora da história e da cultura”. Esta afirmação esteve muito presente nos escritos de Pauw e Hegel.
A teoria antropológica evolucionista:
Com fundamento nestas concepções, as primeiras grandes obras da antropologia, pensavam, por exemplo, o indígena das sociedades extra-européias, como o primitivo, o ancestral do ser humano civilizado. Embora isto tenha firmado e qualificado o saber antropológico como disciplina, centralizando seu debate no modo como as formas mais simples de organização social teriam, de acordo com aquela linha teórica, evoluído, para alcançarem as formas mais complexas destas sociedades, culminando, para os pensadores de então, na sociedade européia.
Nesta forma de apreender a experiência humana, esta é avaliada como idêntica, desenvolvida em ritmos diversos, e todas as sociedades, mesmos as desconhecidas pertenceriam a esta linha evolutiva, estando, somente, em etapas distintas. Isso balizou a idéia de que a demanda colonial seria "civilizatória", pois estaria levando aos povos ditos "primitivos" o "progresso tecnológico-científico" das sociedades tidas como "civilizadas". É preciso pensar estes equívocos como parte da visão de mundo da época, que pretendiam estabelecer as diretrizes gerais de uma lei universal de desenvolvimento. Pensando desta forma, por exemplo, Durkheim se valeu do estudo das manifestações totêmicas dos nativos australianos, para pensar a origem de todas as religiões. Partindo de tais premissas, surgem os conceitos de progresso e determinação.
O método da antropologia evolucionista:
O método se centralizava numa incansável comparação de dados, retirados das sociedades e de seus contextos sociais, classificados de acordo com o tipo (religiosos, de parentesco, etc), determinado pelo pesquisador, que lhe serviam para comparar as sociedades entre si, determinando-as num estágio específico, inscrevendo estas experiências numa abordagem linear, diacrônica, de modo que todo costume representasse uma etapa numa escala evolutiva, como se o próprio costume tivesse a finalidade de auxiliar esta evolução, e, portanto, os evolucionistas pensavam os costumes como se eles se demarcassem por uma espécie de substância, finalidade, origem, uma individualidade, não como um elemento da gramática social, interdependente de seu contexto.
Os pensadores da antropologia evolucionista:
A sistematização do conhecimento acerca destes povos, tido como "primitivos", se deu, predominante, em gabinetes, sem contato com estes povos, utilizando apenas os relatos escritos, de viajantes de diversos tipos. A produção dos antropólogos do período é o resultado desta compilação acerca das culturas humanas.
A Antropologia difusionista
A Antropologia Difusionista reagia ao evolucionismo, e foi contemporânea a ele.Privilegiava o entendimento da natureza da cultura, em termos da origem da mesma e da sua extensão de uma sociedade a outra. Para os difusionistas, o empréstimo cultural seria um mecanismo fundamental de evolução cultural. O difusionismo acreditava que as diferenças e semelhanças culturais eram conseqüência da tendência humana para imitar e a absorver traços culturais, como se a humanidade possuísse uma "unidade psíquica".
O surgimento da "linhagem francesa" na Antropologia:
Com Émile Durkheim começam a se definir os fenômenos sociais como objetos de investigação socio-antropológica, e a partir da análise da publicação de Regras do Método Sociológico, em 1895, começa-se a pensar que os fatos sociais seriam muito mais complexos do que se pretendia até então. No final do século XIX, juntamente com Marcel Mauss, Durkheim se debruça nas representações primitivas, estudo que culminará na obra Algumas formas primitivas de classificação, publicada em 1901. Inaugura-se a denominada " linhagem francesa" na Antropologia.
O século XX:
Com a publicação, de “As formas elementares da vida religiosa” em 1912, Durkheim, ainda preso ao debate evolucionista, discute a temática da religião. Marcel Mauss publica com Henri Hubert, em 1903 a obra Esboço de uma teoria geral da magia, aonde forja o conceito de mana. Vinte anos depois, seu livro, Ensaio sobre a dádiva tece o conceito de fato social total. Centralizada, inicialmente, na denominada “Etnologia”, a Antropologia Francesa, inicia, como disciplina de ensino, a partir de 1927, no “Institut d´Ethnologie del Musée de l´Homme” em Paris. Em seus anos início a disciplina se vinculara ao Museu de História Natural, porque se abordava a antropologia como uma subdisciplina da história natural. Ainda existia um determinismo biológico de acordo com o qual se considerava que as diferenças culturais eram fruto das diferenças biológicas entre os humanos.
Nos EUA, Franz Boas desenvolve a idéia de que cada cultura tem uma história particular e que a difusão de traços culturais direcionar-se a toda parte. Nasce o relativismo cultural, e a antropologia defende sua investigação atrelada ao trabalho de campo. Para Boas, cada cultura pertenceria a sua própria história. Para compreender, efetivamente, a cultura é preciso reconstruir a história da mesma. Surgia o Culturalismo, também conhecido como Particularismo Histórico. Deste movimento nasceria, posteriormente a escola antropológica da Cultura e Personalidade. Paralelo a estes movimentos, na Inglaterra, nasce o Funcionalismo, que enfatiza o trabalho de campo (observação participante). Para sistematizar o conhecimento acerca de uma cultura é preciso apreendê-la em sua totalidade. Para elaborar esta produção intelectual surge a etnografia. As instituições sociais centralizam o debate, a partir das funções que exercem na manutenção da totalidade cultural.

HISTÓRIA DA ANTROPOLOGIA PARTE I


Texto 03

História da Antropologia Parte I

A construção do olhar antropológico e seus principais debates:
Embora a grande maioria dos autores concorde que a antropologia tenha se definido enquanto disciplina apenas depois da revolução Iluminista, a partir de um debate mais claro acerca de objeto e método, as origens do saber antropológico remontam à Antiguidade Clássica, atravessando séculos. Enquanto o ser humano pensou a si mesmo e sua relação com "o outro", pensou antropologicamente.
Primórdios:
Homero, Hesíodo e os Filósofos Pré-socráticos já se perguntavam a respeito do impacto das relações sociais sobre o comportamento humano. Ora pretendendo este impacto como conseqüência do desejo dos deuses, como enumera a Odisséia de Homero e a Teogonia de Hesíodo, ou se valendo de construções racionais de pensamento, valorizando muito mais a apreensão da realidade no cotidiano da experiência humana, como privilegiaram os Filósofos Pré-socráticos, foi, sem dúvida, na Antiguidade Clássica que a "medida Humana" se evidenciou como centro da discussão acerca do mundo. Os gregos deixaram substanciosos registros e relatos acerca de culturas diferentes das suas, assim como chineses e romanos. Nestes textos, nascia, por assim dizer, a Antropologia, e um exemplo disto, no século V a.C., se revela na obra de Heródoto, que descreveu minuciosamente as culturas com as quais seu povo se relacionava. Da contribuição grega faz parte também as obras de Aristóteles (acerca das cidades gregas) e Xenofonte (a respeito da Índia).
Entre os romanos merece destaque o poeta Lucrécio, debruçado sobre a tentativa de investigar as origens da religião, das artes e do discurso. Outro romano, Tácito analisou a vida das tribos germanas, tomando como base os relatos dos soldados; nesta análise salienta o vigor dos germanos em contraste com os romanos da sua época. Agostinho um dos pilares teológicos do Catolicismo, descreveu as civilizações greco-romanas “pagãs” e moralmente inferiores às sociedades cristianizadas. Em sua obra já discutia de maneira pouco elaborada a possibilidade do “ tabu do incesto” funcionar como norma social de manutenção da coesão da sociedade. É importante salientar, que Agostinho, no entanto, privilegiou explicações sobrenaturais para a vida sociocultural.
Embora não existisse como disciplina específica, o saber antropológico participou das discussões da Filosofia, ao longo dos séculos. Durante a Idade Média muitos escritos contribuíram para a formação de um pensamento racional voltado ao estudo da experiência humana, como é o caso do administrador francês Jean Bodin, estudioso dos costumes dos povos conquistados, que buscava, em sua análise, explicações para as dificuldades que os franceses tinham para administrar esses povos. Com o advento do movimento iluminista este saber foi estruturado em dois núcleos analíticos: a Antropologia Biológica (ou Física), de modo geral analisada como ciência natural, e a Antropologia Cultural, classificada como Ciência Social.
O século XVIII:
Até o século XVIII, o saber antropológico esteve presente na contribuição dos cronistas, viajantes, soldados, missionários e comerciantes que discutiam, em sua produção acerca dos povos que conheciam, a maneira como estes estabeleciam sua experiência humana, por meio de seus hábitos, normas, características, mitos, rituais, linguagem, etc. Apenas no século XVIII, a Antropologia adquire a categoria de ciência, partindo das classificações de Lineu, tendo como objeto a análise das "raças humanas".
Os informantes destes primeiros tempos eram os textos que descreviam as terras (Fauna, Flora, Topografia) e os povos “descobertos” (Hábitos e Crenças). Algumas obras que foram utilizadas, para discutir os indígenas brasileiros, por exemplo, foram: a carta de Pero Vaz de Caminha (“Carta do Descobrimento do Brasil”, os relatos de Staden, “Duas Viagens ao Brasil”, os registros de Jean de Léry, “Viagem a Terra do Brasil”, e a obra de Jean Baptiste Debret, “Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil. Além destas outras obras falavam das terras récem descobertas, como a carta de Colombo aos Reis Católicos. Toda esta produção escrita levantou uma grande discussão acerca dos indígenas. A contribuição dos missionários jesuítas na América (como Bartolomeu de Las Casas e Padre Acosta) ajudaram a desenvolver a denominada “teoria do bom selvagem”, que pensava os índios detentores de uma natureza moral pura, modelo que devia ser aprendido pelos ocidentais. Esta teoria defendia a idéia de que cultura mais próxima do estado "natural" serviria como remédio aos males civilizatórios.
O século XIX:
No Século XIX, por volta de 1840, Boucher de Perthes se utiliza do termo homem pré-histórico, para discutir como seria sua vida cotidiana, a partir de achados arqueológicos, como utensílios de pedra, cuja idade se estimava bastante antiga. Posteriormente, em 1865 John Lubock reavaliou numerosos dados acerca da Cultura da Idade da Pedra e compilou uma classificação em que enumerava as diferenças culturais entre o Paleolítico e Neolítico.
Com a publicação de dois livros, A Origem das Espécies, em 1859 e A descendência do homem, em 1871, Charles Darwin principia a sistematização da teoria evolucionista. Partindo da discussão trazida à tona por estes pesquisadores, nascia a Antropologia Biológica(Física).

CONCEITUAÇÃO DE ANTROPOLOGIA


Texto 02

Conceituação de Antropologia

Antropologia (cuja origem etimológica deriva do grego άνθρωπος [ánthropos], humano/pessoa e λόγος [lógos], estudo) é a disciplina centralizada no estudo do homem. Como ciência da humanidade, ela se preocupa em conhecer cientificamente o ser humano em sua totalidade, o que lhe confere um tríplice aspecto:
a.) Ciência Social - propõe conhecer o homem enquanto elemento integrante de grupos organizados.
b.) Ciência Humana - volta-se especificamente para o homem como um todo: sua história, suas crenças, usos e costumes, filosofia, linguagem etc.
c.) Ciência Natural - interessa-se pelo conhecimento psicossomático do homem e sua evolução.
Relaciona-se, assim, com as chamadas ciências biológicas e culturais; as primeiras visando o ser físico e as segundas o ser cultural.
Hoebel e Frost definem a antropologia como "a ciência da humanidade e da cultura. Como tal, é uma ciência superior social e comportamental, e mais, na sua relação com as artes e no empenho do antropólogo de sentir e comunicar o modo de viver total de povos específicos, é também uma disciplina humanística".
A Antropologia tem uma dimensão biológica, enquanto antropologia física; uma dimensão sociocultural, enquanto antropologia social e/ou antropologia cultural; e uma dimensão filosófica, enquanto antropologia filosófica, ou seja, quando se empenha em responder à indagação: o que é o homem?
Apesar da diversidade dos seus campos de interesse, constitui-se em uma ciência polarizada, que necessita da colaboração de outras áreas do saber, mas conserva sua unidade, uma vez que seu foco de interesse é o homem e a cultura.
Pode-se afirmar que há poucas décadas a antropologia conquistou seu lugar entre as ciências. Primeiramente, foi considerada como a história natural física do homem e do seu processo evolutivo, no espaço e no tempo. Se por um lado essa concepção vinha satisfazer o significado literal da palavra, por outro restringia o seu campo de estudo às características humanas físicas. Essa postura marcou e limitou os estudos antropológicos por largo tempo, privilegiando a antropometria, ciência que trata das mensurações do homem fóssil e do ser vivo.
A Antropologia visa ao conhecimento completo do homem, o que torna suas expectativas muito mais abrangentes. Dessa forma, uma conceituação mais ampla a define como a ciência que estuda o homem, suas produções e seu comportamento. O seu interesse está no homem como um todo - ser biológico e ser cultural -, preocupando-se em revelar os fatos da natureza e da cultura. Tenta compreender a existência humana em todos os seus aspectos, no espaço e no tempo, partindo do princípio da estrutura biopsíquica. Busca, também, a compreensão das manifestações culturais, do comportamento e da vida social.
Objeto de estudo:
A Antropologia como ciência do biológico e do cultural tem seu objeto de estudo definido: o homem e suas obras.
Objetivo da Antropologia:
Hoebel e Frost afirmam que a "antropologia fixa como seu objetivo o estudo da humanidade como um todo..." e nenhuma outra ciência pesquisa sistematicamente todas as manifestações do ser humano e da atividade humana de maneira tão unificada. É um objetivo extremamente amplo, visando o homem como expressão global - biopsicultural -, isto é, o homem como ser biológico pensante, produtor de culturas e participante da sociedade, tentando chegar, assim, à compreensão da existência humana.
Divisões e campo da Antropologia:
A Antropologia, sendo a ciência da humanidade e da cultura, tem um campo de investigação extremamente vasto: abrange, no espaço, toda a terra habitada; no tempo, pelo menos dois milhões de anos e todas as populações socialmente organizadas. Divide-se em dois grandes campos de estudo, com objetivos definidos e interesses teóricos próprios: Antropologia Física ou Biológica e Antropologia Cultural. Assim fazer que o homem busque na sua origem a amplitude de conhecer a si mesmo com os costumes e instintos.
Considerações:
Para pensar as sociedades humanas, a antropologia se preocupa em detalhar o mais completamente possível os seres humanos que dela fazem parte, e com elas se relacionam, seja em seus aspectos físicos, em sua relação com a natureza, seja em sua constituição cultural. Para o saber antropológico o conceito de cultura abarca diversas dimensões: universo psíquico, os mitos, os costumes e rituais, suas histórias particulares, a linguagem, valores, crenças, leis, relações de parentesco, entre outros.
Embora o estudo das sociedades humanas se remote a Antigüidade Clássica, a antropologia nasceu, como ciência, efetivamente, da enorme revolução cultural iniciada pelo Iluminismo.

ANTROPOLOGIA: CIÊNCIA RECENTE


Texto 01

Antropologia: Ciência Recente

“A visão funcional da cultura repousa no principio de que em qualquer tipo de civilização, cada costume, objeto material, idéia ou crença, satisfaz alguma função vital, assim como certas tarefas realizadas representam uma parte indispensável para todo o trabalho”. (B.Malinowski)
Entre as diversas ciências humanas que emergiram da Revolução Intelectual dos séculos XVIII-XIX, a antropologia foi a mais tardia de todas. A sua motivação inicial, o elemento deflagrador para que ela se tornasse uma ciência, decorreu do impacto do pensamento evolucionista e darwinista no século XIX.
Ao colocar-se em descrença a explicação bíblica exposta no Gênese, pela qual o homem nasceu de uma ação divina imediata, o Ato da Criação, abriu-se o caminho para que cientistas e demais pesquisadores saíssem a campo, pelo mundo todo, atrás do chamado elo perdido, isto é, do antropóide ou hominídeo, o ser meio animal, meio humano, que hipoteticamente teria ligado, em algum tempo remotíssimo, o mundo natural ao mundo humano, a ponte sobre o riacho Rubicon que aproximara, num lugar incerto e obscuro do tempo, o símio do homem. Abandonavam desta maneira a crença na divindade do ser humano, implícita a qualquer pensamento religioso, para, aparelhados nas ciências físicas e exatas, mergulharam atrás das suas raízes naturais do homem, entendendo-o fruto da Natureza e não de Deus.
Simultaneamente a esta verdadeira caçada às formas pré-humanas, atrás dos vestígios últimos dos primatas, os interesses dos investigadores ampliaram-se para o estudo das sociedades ditas primitivas, acreditando que elas também mereciam serem submetidas ao crivo da racionalidade ocidental. Desta forma, a antropologia começou a alargar-se, procurando determinar qual era a organização social das tribos e qual era o sistema de parentesco delas, como realizavam suas cerimônias de iniciação e de matrimônio, como procediam nos seus ritos religiosos e nos de sepultamento, e de que maneira viam os céus e temiam os demônios.
A Antropologia é, pois, o estudo do homem. Se bem que, como observou Malinowski, existam outras ciências que igualmente o fazem, tais como a sociologia, a psicologia, a historia, a leis, a economia, e a ciências políticas, ela, a antropologia, se distingue por incluir na sua área de estudo as questões de ordem físicas, anatômicas e estruturais do homem, atendidas pela chamada Antropologia Física, que tratado o homem como um organismo físico, seguiu as pistas da sua evolução a partir das formas mais primitivas da vida.
Antropologia física:
Os antropólogos físicos, atuando quase que como arqueólogos ou anatomistas, analisam o material fóssil esquelético das formas que estão dentro da descendência humana (múmias indígenas dos maias, astecas e incas, por exemplo) ou nas suas proximidades. Os resultados disso são classificados , graças à técnica do Carbono 14, também chamada como o Relógio do Carbono, numa certa seqüência de tempo, comparando anatomicamente suas descobertas com a estrutura física dos primatas atualmente existentes. O resultado chocou-se com a antiga classificação feita pelo arcebispo de Ussher, que datou a origem do homem no ano 4004 a .C., pois os antropólogos fizeram recuar o seu aparecimento para um milhão de anos atrás! Além disso tratam de observar e registrar cuidadosamente o comportamento dos símios, macacos e outros primatas dentro dos seus ambientes naturais e sob condições controladas de laboratório. Além disso, estudam no homem moderno suas diferenças epidérmicas, a cor dos olhos, a textura do cabelo, o tipo de sangue, a constituição do corpo (altura, envergadura) bem como outros fatores que caracterizam a espécie.
Antropologia cultural:
Outro ramo da antropologia que ganhou grande estatura, e uma projeção que saltou para bem além das suas fronteiras de investigação, foi o da antropologia cultural. Isto se deveu pela impressionante ampliação do seu campo de ação, englobando a lingüística, a arqueologia e a etnologia (descrição ou crônica da cultura de uma tribo ou povo), estudos esses que se referem ao comportamento do homem, particularmente no que diz respeito às atitudes padronizadas, rotineiras, que genericamente chama-se de cultura. Entenda-se que para o antropólogo a palavra cultura adquire uma outra dimensão do que a que convencionalmente entendida. Não se trata de identificá-la, a cultura, com erudição ou sofisticação, como é comum associar-se essa palavra, mas sim de utilizá-la para definir tudo aquilo que o homem faz, pois, para o antropólogo, cultura é forma de vida de um grupo de pessoas, uma configuração dos comportamentos aprendidos, aquilo que é transmitido de geração em geração por meio da língua falada e da simples imitação. Não se trata de um comportamento instintivo, mas algo que resulta de mecanismos comportamentais introjetados pelo indivíduo.
Áreas de interesse:
Além da religião, fazem parte da cultura os modos de alimentar-se (“O cru, o assado e o cozido”, brilhante ensaio de Lévi-Strauss, mostra a variação dos procedimentos das tribos com o alimento), de vestir-se, de combater ou de seguir os rituais religiosos. Os antropólogos que seguem por esta senda podem até ser divididos naqueles que se interessam em procurar aquilo que é comum entre as várias culturas espalhadas pelo mundo, e aqueles outros que têm o seu interesse voltado exclusivamente para o que é original, singular, único, naquela cultura. Seus olhos e ouvidos voltam-se então para a magia, para os mistérios anímicos, os medos, aos fantasmas, a linguagem dos sonhos, para a mitologia e as concepções cósmicas, para o significado dos totens, para o sistema de parentesco e os procedimentos nupciais, para as tatuagem e automutilações, os sacrifícios, tudo isto entendido pelos antropólogos como “linguagens” especiais passíveis de serem estudadas, compreendidas e catalogadas.

quinta-feira, 17 de agosto de 2006

segunda-feira, 14 de agosto de 2006

INFLUÊNCIA DA TV


Influência da TV na formação dos jovens preocupa especialistas:

Pesquisas revelam que a televisão nos lares brasileiros é onipresente. São cerca de 40 milhões de aparelhos com espaço consagrado muitas vezes onde não há fogão ou geladeira. Para reforçar as estatísticas, o Instituto da Cidadania revelou recentemente que 91% dos jovens, entre 15 e 24 anos, vêem TV. Na outra ponta, o IBGE indica que 14 milhões de brasileiros nunca foram à escola.Estes dados suscitam, de imediato, duas indagações: O jovem excluído, sem acesso à escola, assiste à TV? A onipresença da televisão nos lares do Brasil moderno, com audiência maciça entre crianças e adolescentes, está delegando à TV o papel de educar e gerar os valores que vão construir o século XXI?
Uma pesquisa desenvolvida por dois norte americanos, Newcombe e Hirsch, estudiosos dos papéis culturais do entretenimento, concluiu que a TV está no centro do processo de pensamento do público. O jornalista Rogério Faria Tavares, presidente da seção mineira da ONG TVER, que analisa as conseqüências e responsabilidades da televisão no desenvolvimento infanto-juvenil e na formação do ser humano, acredita que a influência exercida por programas televisivos na vida de crianças e jovens pode ser prejudicial. “A TV é um veículo de mão única, não dialoga, apenas impõe”, diz. De acordo com ele, a influência da televisão no comportamento infanto-juvenil ocorre na medida em que a TV veicula mensagens dizendo quais atitudes e costumes os jovens devem adotar. Por outro lado, a psicóloga Maria Helena Ferreira, pós-graduada em psicologia educacional, afirma que as influências da TV podem ser positivas. Para ela, nesses casos, deve haver consciência da identificação com o objeto. “Canalizamos, assim, energia contida, liberando tensões”, explica.


Fontes:

INFLUÊNCIA DA MÍDIA ESTRANGEIRA


Especialistas discutem a influência da mídia estrangeira em seus países

A Sessão Paralela Muito rápido, muito cedo: erotismo, consumismo e mídia reuniu na mesma mesa de debates uma norte-americana, uma norueguesa, uma queniana e duas brasileiras. Os relatos trataram de países com realidades muito diferentes. Por exemplo: enquanto Ellen Wartella, do College of Communication, mostrou que os bebês e crianças dos Estados Unidos estão assistindo à TV cada vez mais cedo, que 99% das famílias norte-americanas assistem à TV e que a maioria das casas tem 5 televisores, Josephine Karani, da Kenya Broadcasting Corporation, relatou que, quando há uma TV num lar de seu país, ela fica na sala, em lugar e destaque para que toda a família possa assistir, reunida, à programação.
Segundo Ellen, uma em cada dez crianças até 2 anos usa computador nos Estados Unidos. A maioria das crianças assiste a, pelo menos, duas horas de TV por dia. O aparelho permanece ligado a metade do tempo em que existem pessoas em casa. Além disso, a garotada dorme com pijamas e brinca com brinquedos dos personagens dos programas infantis que assistiram durante o dia.
O que os pais pensam disso? De acordo com a pesquisadora, eles acreditam em teses que dizem que crianças expostas a programas educativos desde muito cedo terão melhores desempenhos escolares. Ellen adverte, no entanto: "Não há qualquer comprovação a este respeito". Pelo contrário, alguns estudos começam a mostrar que distúrbios de atenção e concentração podem ser causados por causa desse contato excessivo com a TV, o rádio, a internet, os jogos eletrônicos.
A queniana Josephine apresentou as dificuldades de seu país. Por causa dos altos custos das produções educativas para crianças, muitos programas são importados de outros países e não traduzem a realidade africana. Assim, a sociedade que até pouco tempo achava inconcebível ver um homem de brinco está começando a ter que se acostumar com as novidades que os meninos descobrem na programação de TV. Em seu país soa estranho um homem cheio de trancinhas, mas a cultura de outros povos começa a chegar muito rapidamente.
"A programação de fora, às vezes de má qualidade, não ajuda na divulgação dos valores e cultura africana. Agora começam a aparecer no Kenya músicos que se apresentam quase pelados, com piercings... A influência da TV está andando tão rápido que talvez percamos o controle sobre isso", declarou Josephine. E finalizou sua fala enfatizando que a mídia pode sim reforçar valores morais importantes.
Já a norueguesa Mia Lindrup argumentou contra as tentativas do governo de seu país de limitar comerciais destinados ao público infantil. Para ela o ideal seria educar as crianças para ter um olhar crítico diante do que a mídia oferece. "A criança norueguesa é absolutamente independente, conhece seus direitos, tem opiniões muito fortes, liberdade para agir, opera em vários papéis no nível familiar. Relaciona-se com muitos adultos", relatou Mia.
Para fechar a sessão, a Secretária Nacional de Justiça, Cláudia Chagas, tratou do papel do Estado no controle de programas de TV e filmes que são assistidos por crianças e adolescentes no Brasil. Como responsável pela classificação indicativa dos programas de TV, o Ministério da Justiça, de acordo com a Secretária, defende a liberdade de expressão e coíbe excessos que possam prejudicar os jovens
Apesar da classificação, o Ministério não pode punir, por exemplo, uma emissora que coloque no ar um filme no horário não apropriado. Excessos, no entanto, podem ser controlados. O Ministério Público tem tomado medidas de emergência para tirar do ar programas que agridam e possam ser realmente perigosos para crianças e adolescentes caso sejam veiculados.
Para que os brasileiros saibam como é feita a classificação, quais os critérios usados, o Ministério da Justiça disponibilizou uma simulação no site www.mj.gov.br "O Estado não pode lavar as mãos, mas também não pode substituir a família, entrando na casa dos outros de forma autoritária", finalizou Cláudia.

(Relatoria: Fernanda Lambach - Jornalista Amiga da Criança - ANDI)

ADOLESCÊNCIA E TV


REFLEXÕES SOBRE A INFLUÊNCIA DA MÍDIA

Sem espaço para o debate, a televisão brasileira encara o adolescente como mero consumidor e perde a oportunidade de aliar entretenimento à educação:

Quatro horas por dia. Este é o tempo médio, segundo o Unicef, que os adolescentes brasileiros ficam colados na TV, consumindo valores, comportamentos, produtos, modas, padrões de beleza, informação, diversão. Para seduzir essa fatia do mercado, as emissoras apelam para cenas de sexo, violência, cultura da adrenalina. Pesquisas no Brasil e no exterior mostram as conseqüências de uma programação empobrecida para a formação do público adolescente. Programas como o Barraco MTV ou o Programa Livre, que até pouco tempo funcionavam como porta-vozes da inquietação da juventude, não existem mais. Este rebaixamento dos padrões difunde uma fórmula de programas de auditório que, centrados em depoimentos pessoais de pessoas famosas, encaram a juventude como uma massa uniforme, desrespeitando as diferenças e as peculiaridades do público jovem, que tem a TV como fonte de lazer e informação confiável.

Adolescentes confiam na TV:

A pesquisa A Voz dos Adolescentes, realizada pelo Unicef e pela empresa de pesquisa Fator OM, ouviu 5280 adolescentes brasileiros e revela:

Meninos e meninas entre 12 e 17 anos passam, em média, 3 horas e 55 minutos por dia em frente à TV. Esta média chega a 4 horas entre o grupo que tem de 12 a 14 anos.
Novelas e minisséries são os programas preferidos, com 21% das respostas. Em seguida, estão os filmes (14%) e desenhos animados (12%).
A TV é a segunda principal fonte de diversão e lazer (citada por 51% dos entrevistados), depois de ir à casa dos amigos (53%).
Em todas as classes sociais, a programação da televisão brasileira é considerada boa pela maioria dos entrevistados (63,4% da classe A; 65,2% na classe B; 75,4% na classe C e 74,4% na classe D).
Entre as fontes de informações esclarecedoras sobre sexualidade, a mídia aparece em terceiro lugar, empatada com os amigos (46%), depois da família (54%) e da escola (48%).
Meninos e meninas disseram acreditar que os meios de comunicação têm apenas a função de informar, mas reconhecem que eles podem influenciar o seu comportamento, dependendo do senso crítico de cada pessoa.

Pesquisa: A Voz dos Adolescentes, realizada por Unicef / Fator OM, 2002
Influência na formação de valores:

Nos Estados Unidos, 750 americanos entre 10 e 16 anos, foram entrevistados sobre a influência da TV: um terço disse que quer experimentar as coisas que vê na televisão; 82% disseram que os programas de TV deveriam ajudar a ensinar o que é certo e o que é errado; quase a metade disse que os programas transmitidos à noite levam a acreditar que a maioria das pessoas é desonesta; mais da metade disse que os programas de TV retratam os pais "bem mais bobos do que são na vida real"; 62% disseram que o sexo na televisão e nos cinemas os influenciam a fazer sexo quando ainda são muito novos.

Manual do Telespectador Insatisfeito, de Wagner Bezerra (Ed. Summus, 1999)

Quem é responsável pela qualidade da programação?

"A TV é a mídia mais superficial de todas. Ela irá mudar quando tivermos um espectador mais crítico e exigente e quando a baixaria deixar de ser tolerada por quem faz TV. O espectador tem um poder ainda não totalmente exercido: o de mudar de canal."
Serginho Groisman, que comandava o Programa Livre (SBT) e hoje é responsável pelo Altas Horas (Rede Globo), veiculado à 1h da manhã de sábado.


"A qualidade da informação depende de quem produz e apresenta os programas. As pesquisas do Ibope entrevistam um universo muito pequeno de telespectadores. Por isso digo que o público não interfere tanto, quem está atrás das câmeras sim".
Pedro Paulo Carneiro, diretor dos programas Novo Caderno Teen, Plugado e Super Tudo, da TVE.

"Existem programas de baixa qualidade que fazem grandes apelações para que as pessoas os assistam. Quem gosta de Coca-Cola, por exemplo, não é o único culpado por isso. Há um forte apelo emocional e comercial para que as pessoas gostem".
Zico Góes, diretor de programação da MTV Brasil.

Juventude assusta presidenciáveis:

Em 1998, o presidente Fernando Henrique Cardoso, então candidato à reeleição, perdeu a paciência com as perguntas do público jovem do Programa Livre (SBT). Neste ano, os candidatos à presidência foram convidados para um debate no programa Tome Conta do Brasil, recém criado pela MTV, para discutir com a juventude questões ligadas à cidadania. Quase todos alegaram falta de espaço na agenda. "Com platéias jovens, o imprevisível está sempre presente. Talvez isso assuste alguns candidatos. Mas quem tem certeza de suas posições não tem o que temer. Pelo contrário, essa é uma oportunidade para colocar à prova a clareza de suas intenções partidárias e de seu próprio caráter", diz Serginho Groisman.

Sexualidade na TV:

"Não há uma política de prevenção às DST/Aids na televisão, mas alguns apresentadores falam da importância do preservativo. Já que a televisão trabalha basicamente com ficção, é preciso que os personagens das novelas abordem questões importantes como a gravidez na adolescência e o uso da camisinha". Antônio Carlos Egypto, coordenador do Grupo de Trabalho e Pesquisa em Orientação Sexual (GTPOS).

O que diz a lei:

A produção e a programação das emissoras de rádio e televisão deverão atender aos seguintes princípios:
Preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas.
Programação da cultura nacional e regional e estímulo à produção independente que objetive sua programação.
Regionalização da produção cultural, artística e jornalística, conforme percentuais estabelecidos em lei.

Respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família:

(Artigo 221 da Constituição Federal)
As emissoras de rádio e televisão somente exibirão, no horário recomendado para o público infanto-juvenil, programas com finalidades educativas, artísticas

(Artigo 76, o Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA)

Violência dentro e fora das telas:

"O excesso de violência na TV não leva as pessoas a matarem umas às outras, mas banaliza a violência, fazendo com que se perca a consciência do horror e da morte. O jovem tem sido tratado como um mero consumidor pela televisão. Um cidadão não se baseia só no consumo, mas também na vida política e na educação". Muniz Sodré, professor de Comunicação da UFRJ e autor do livro O Império do Grotesco (Mauad, 2002)

Durante a adolescência, ficar muito tempo ligado na TV contribui para um comportamento agressivo, principalmente porque 60% da programação mostram cenas violentas. Este é o resultado de pesquisa realizada pela Universidade de Columbia com 700 famílias em Nova Iorque, nos Estados Unidos, de 1975 a 2000.
Os adolescentes de 12 anos passam pelo menos 50% mais tempo ligados à TV do que em qualquer outra atividade não-escolar, incluindo os deveres de casa, o convívio com a família ou a leitura, como mostra a pesquisa Percepção dos Jovens sobre a violência nos meios de comunicação de massa, realizada em 1998, pela Unesco, com cerca de cinco mil adolescentes de 12 anos de diferentes países. O Exterminador, de Arnold Schwarzenegger, foi o herói citado por 88% dos entrevistados.

O jornalista e crítico de TV, Eugênio Bucci, chama a atenção para o fato de a violência no vídeo estar muitas vezes invisível, para além dos socos e bofetões: "mesmo parecendo suave como um anúncio de xampu, a televisão pode representar uma escola de violência por deixar em carne viva os abismos sociais que divorciam os homens. Os jovens que se vêem expulsos desse paraíso da publicidade, segregados da ‘cidadania’ que pode ser comprada, insurgem-se de forma violenta contra os privilegiados. Tomam à força o que o mercado não lhes permite adquirir".

Bucci indica três linhas de atuação como resposta à cultura de violência da TV:

Educação para uma convivência crítica com os meios de comunicação;
Legislação que garanta a pluralidade de vozes na programação;
Defesa dos direitos do telespectador, como o direito de não ser ofendido pela programação por ser minoria política, sexual, religiosa ou étnica e o direito de ser bem informado sobre seus direitos de cidadão pela TV.

Revista do Ilanud nº 13 - Crime e TV
Botando a mão na mídia

O projeto Botando a mão na mídia, realizado pelo Centro de Criação de Imagem Popular (CECIP), no Rio de Janeiro, estimula os educadores a utilizar o vídeo em sala de aula, como ferramenta pedagógica para trabalhar os temas transversais.

Educação para os meios:

A organização não-governamental TVer que, desde 1997, discute a qualidade da programação televisiva, inicia, em agosto, um trabalho junto às escolas de Belo Horizonte para promover a educação crítica para os meios de comunicação. Para Rogério Faria Tavares, coordenador da TVer em Minas Gerais, a única referência que a TV oferece é o consumo, o que gera angústia entre os jovens da periferia. "Os programas de TV devem combater o estereótipo do adolescente de classe média do Rio ou São Paulo. A juventude do Brasil tem uma grande pluralidade", diz.

quarta-feira, 9 de agosto de 2006

CONHECIMENTO


PERSPECTIVAS DA CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO

Por: Jorge Schemes

Nada tem um sentido definitivo e de verdades absolutas. Educar é instigar em cada aluno as suas próprias magias. Todo conhecimento é autobiográfico, cada um constrói seu próprio conhecimento, pois conhecimento não se transmite, mas se produz, partindo da realidade de cada um. Por isso o conhecimento autobiográfico é intransferível. O movimento e a atividade são os eixos norteadores da apreensão do conhecimento. A educação é um espaço de tensão entre forças contraditórias. A democratização da educação e a construção de consciências, mais que a transmissão de informações, deve, consciente ou não, trabalhar valores. A pedagogia é tributária a uma epistemologia (concepção de conhecimento).
O método científico acaba formatando modelos de educação (currículos, estruturas e práticas). Na concepção científica a verdade é uma só e há uma punição do erro, o qual poderia ser uma outra verdade do ponto de vista histórico-cultural. O modelo da modernidade alicerça nossos conhecimentos e as universidades são as grandes guardiãs deste modelo. A ciência moderna produziu muitos benefícios para a humanidade por meio de tecnologias, mas ela tem efeitos colaterais. A pós-modernidade começa apresentar novos paradigmas, mesmo diante da objetividade científica há uma busca por subjetividades não reconhecidas pela ciência moderna. A ruptura paradigmática propõe outros modelos. É necessário romper os limites de loteamento do conhecimento. A perspectiva emancipatória enfatiza o processo, não a regulação própria do tradicionalismo. Numa perspectiva generalizada não existem dogmas dentro de uma única concepção, mas tantos quantos são os olhares (verdades). A teoria é o resultado de múltiplas generalizações, mas a prática é e sempre será única. O modelo tradicional é construído na lógica dos saber factual, e objetiva silenciar a dúvida e a divergência, enquanto que a perspectiva pós-moderna vê o conhecimento como objeto em construção, privilegia espaço para dúvida e contempla a divergência por meio da dialética. Todavia, se construir ou se for o caso se reconstruir dentro desta concepção, exige uma ruptura interna. O problema é que em muitos professores não há uma matriz de reflexão teórica, mas uma matriz de reprodução. Contudo, os saberes não vêm de uma única fonte, eles são na verdade múltiplos e dentro de um processo contínuo e não pontual. Diante disso, fica o desafio de construir, destruir e reconstruir constantemente a nossa formação visando alcançar autonomia intelectual.

Linkwithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
Pesquisa personalizada

Mais Postagens: