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domingo, 9 de abril de 2006

DIÁLOGO COM OS SABERES



DIÁLOGO DE SABERES

Por: Jorge Schemes

Cada educador (professor) deve se assumir como intelectual; deve pensar e dar o que pensar. Temos desafios enormes em relação à educação. O analfabeto contemporâneo é aquele que não sabe “ler” o que se passa nos meios de comunicação. A maioria dos professores tem como referência os meios de comunicação e não a crítica aos meios de comunicação. O momento mais verdadeiro dos telejornais talvez seja o que é veiculado nos intervalos comerciais. A tarefa que temos é profunda enquanto intelectuais, pois é a de produzir pensamento próprio, crítico. A questão fundamental é descolonizar o pensamento de matriz européia-ocidental e técnico-científico. Há múltiplas globalizações em curso e não apenas uma como é apresentado na mídia. Há uma globalização hegemônica, mas há globalizações de resistência, de movimentos sociais legítimos. Todavia, o que presenciamos nos meios de comunicação de massa são falas hegemônicas européias. Há uma lógica da racionalidade hegemônica que separa as ciências humanas das ciências naturais. Mais do que o debate multidisciplinar faz-se necessário um debate de saberes que extrapole as linhas da academia e do conhecimento científico. A cultura eurocêntrica tem grande responsabilidade pela subalternidade de outros saberes, outras culturas. Por meio de um projeto de morte e extermínio e pela colonização e exploração da América Latina, a “racionalidade” eurocêntrica produziu um pensamento subalterno.
Quem realmente pôs em curso a revolução tecnológica que está ainda em curso? Esta revolução é parte das relações sociais e de poder. A ciência e a técnica se tornaram mitos (deuses) das sociedades tecnocráticas. Precisamos de uma análise holística de nossas abordagens. É preciso ver que a globalização é um processo muito mais profundo e antigo. Voltemos nosso pensamento para o contexto histórico do século XV. Até essa data se falava de uma história regionalizada. Faz-se necessário desconstruir o pensamento hegemônico eurocêntrico que nos formatou ideologicamente. Os grandes modelos teóricos nos quais está fundamentado o pensamento racional ocidental remontam a Grécia antiga. Esparta, Atenas e Alexandria eram centros culturais que ficavam no oriente. Somente no século XII chegou uma tradução de Aristóteles a Paris. Até o século XV a Europa não possuía centralidade, o que a tornou central foi a “descoberta” da América, a partir de 1492 se forma a modernidade pela colonização e exploração dos outros povos, de suas riquezas e conhecimentos. Diante disto é fundamental uma desconstrução deste pensamento que monopoliza e submete a cultura da América Latina. Desde o início a modernidade é acompanhada de colonização (modernidade colonial). A desconstrução deste pensamento é fundamental para a construção de outro modelo alternativo. É preciso que como educadores desenvolvamos uma visão antropológica de respeito à diversidade. Um exemplo da racionalidade de matriz eurocêntrica é o discurso que é feito em torno da escassez de água pelo Banco Mundial, com o intuito de justificar a privatização da água. O viés tem que ser outro. Devemos perguntar como as culturas indígenas, por exemplo, cuidam da água? Porém, a racionalidade imposta pelo modelo eurocêntrico não favorece um diálogo com outros saberes. É necessário um diálogo entre os saberes para instaurar outro modelo de desenvolvimento que seja de fato sustentável. A mídia apresenta uma “economização” da natureza e da riqueza. Mas afinal, o que é riqueza? O dinheiro não é riqueza, mas aquilo que está presente na natureza é a riqueza, por exemplo: entre o dinheiro e a água a riqueza está na água. Há uma visão reducionista de preservação ambiental que está dentro de um modelo eurocêntrico que separa a natureza dos povos e de seus diferentes saberes. Precisamos desconstruir o saber despejado sobre nós pelo pensamento racional tecnocrático ocidental.
O princípio de igualdade e oportunidades deve fundamentar as políticas públicas em educação. Faz-se necessário criar novos conteúdos, novos espaços e novas oportunidades de ensinagem, e um dos caminhos pode ser a educação não-formal. Educação e sustentabilidade devem andar juntas. Para que isto seja possível é preciso ressignificar o conhecimento, considerar os diferentes saberes dentro desta nova proposta educacional. Repensar a humanidade. A premissa: “pensar globalmente e agir localmente” precisa ser acrescida de outra que diz: “pensar localmente e agir globalmente”. Devemos reivindicar nosso direito a pensar e agir localmente. Não podemos aceitar subordinação e subjugação dos diferentes saberes ao conhecimento imposto pela racionalidade eurocêntrica. Para tanto o educador precisa pensar e refletir sobre si mesmo e ter vontade de mudar, ressignificando sua humanidade. Isso implica em reelaborar e ressignificar símbolos e palavras. Recuperar a nossa capacidade de sonhar e imaginar um futuro possível, e devemos fazer isso unidos, juntos.
O objetivo da educação deve ser o de alcançar a satisfação e a felicidade tendo como fundamento a ética da alteridade e não a coisificação da vida. É imperativa a recuperação da solidariedade humana. Precisamos ser seres humanos íntegros com desejo de construir um mundo melhor. Devemos levar a seguinte reflexão para a educação: Como será este mundo? Será apenas o resultado de um acúmulo de capital? Para um projeto diferente é preciso ressignificar a humanidade e romper a relação do ser com as coisas, buscando recuperar a relação do ser com os diferentes saberes.
Os diferentes saberes apresentam para a vida diferentes sabores. Nossa busca da realidade deve ser feita provando-a, tocando-a e não apenas pensando ou refletindo o que já foi pensado. Hoje, mais do que nunca é preciso uma fusão da ética e do conhecimento. Precisamos superar a proibição de ser, de pensar e de sonhar. O humano é habitado pela linguagem e pelo pensamento; é habitado pela potência de ressignificar o mundo; pela potência política e ética da diversidade e da alteridade. Precisamos como educadores reativar as palavras e os símbolos que favorecem o diálogo entre os diferentes saberes e a perda de sentidos da existência humana. Neste contexto está o diálogo de saberes, onde outros são absolutamente outros em seus diferentes saberes. Esta política da diferença está arraigada em algum movimento social. Educação neste contexto é estar em um estado de busca, e pedagogia é reconstruir reaprendizagens como uma viagem interminável.
A natureza íntima do humano é a sabedoria e particularmente os sentimentos, somos seres capazes de amar e imaginar um futuro cuja gramática, as palavras, os verbos, os símbolos e tudo o mais que caracteriza esta humanidade promova a desconstrução e reconstrução do humano no ser e a libertação de um pensamento colonizado pela racionalidade instrumental e capitalista. Os monopólios internacionais precisam ser questionados por um currículo que favoreça o diálogo e a valorização dos diferentes saberes, das diferentes manifestações culturais, povos, religiões, etc. A tecnologização da vida que causa distância e solidão pode ser superada por meio de uma pedagogia do encontro, do rosto e da alteridade. Para tanto é preciso repensar o pensamento, e estabelecer um projeto emancipador de construção de diálogo com os diferentes saberes. É preciso imaginar outras didáticas, outras metodologias e outros currículos que envolvam a complexidade da racionalidade ambiental. Precisamos educar para um processo de reconstrução, de reencantamento da vida, do mundo e do próprio ser humano. Esse é um processo de transformação interna e externa, de pensar, sentir e agir. Temos o direito ao pensamento crítico. Se o nosso trabalho parecer em vão devemos considerar que, embora não sejamos ainda o que desejamos ser, também não somos mais o que éramos.

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