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quarta-feira, 22 de novembro de 2006

O QUE É CULTURA?



CULTURA: UM CONCEITO ANTROPOLÓGICO

Por: Jorge Schemes

Bibliografia sintetizada:


LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001.

SÍNTESE

O desenvolvimento do conceito de cultura é importante para a compreensão do paradoxo da enorme diversidade cultural da espécie humana. O dilema da espécie está entre sua unidade biológica e sua diversidade cultural.

“A natureza dos homens é a mesma, são os seus hábitos que os mantém separados”. (Confúcio, séc. IV a.C.)

Monogegismo: Doutrina antropológica segundo a qual todas as raças humanas procedem de um tipo primitivo único.

M Montaigne (1533-1572) - “ Na verdade, cada qual considera bárbaro o que não se pratica em sua terra”.

Tentativas de explicação do dilema:

1. Determinismo biológico:

“Para a antropologia, as diferenças genéticas não são determinantes das diferenças culturais”.

As diferenças genéticas hereditárias não constituem um fator de importância primordial entre as causas das diferenças culturais e civilizatórias dos diversos povos ou grupos étnicos. È a história cultural de cada grupo que explica essas diferenças.

Não é a racionalidade biológica (determinismo biológico) que determina as diferenças de comportamento entre homens e mulheres, mas a cultura.

O comportamento é o resultado de aprendizado, o processo de endoculturação. Comportamentos diferentes são o resultado de educação diferenciada.

2. determinismo geográfico:

As diferenças do ambiente físico condicionam a diversidade cultural? Há uma limitação na influência geográfica sobre os fatores culturais. É possível existir uma grande diversidade cultural localizada em um mesmo tipo de ambiente físico.

Como conclusão podemos afirmar que as diferenças entre os homens não podem ser explicadas pelos determinismos biológico e/ou geográfico.

O homem rompeu com suas limitações, por isso difere dos outros animais por ser o único que possui cultura. Mas o que é cultura?

Vejamos alguns antecedentes históricos do conceito de cultura:

Edward Tylor (1832-1917): Kultur (alemão), Significa todos os aspectos espirituais de uma comunidade. Civilization (inglês), significa as realizações materiais de um povo. Culture (inglês), em seu amplo sentido etnográfico é este todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábito adquirido pelo homem como membro de uma sociedade.

Kroeber escreveu o artigo: “O Superorgânico” (in American Antropologist, vol. XIX, Nº 02, 1917).

Kroeber rompeu os laços entre o cultural e o biológico, postulando a supremacia da cultura em detrimento da biologia. O homem é diferente dos demais animais por dois motivos: 1º) A possibilidade da comunicação oral. 2º) A capacidade de fabricação de instrumentos capazes de tornar mais eficiente o seu aparato biológico. Assim, o homem é o único ser possuidor de cultura.

O desenvolvimento do conceito de cultura:

Para Edward Tylor a cultura pode ser objeto de um estudo sistemático, pois trata-se de um fenômeno natural que possui causas e regularidades, permitindo um estudo objetivo e uma análise capazes de proporcionar a formulação de leis sobre o processo cultural e a evolução. Considerava as
considerações metafísicas e teológicas sobre a natureza humana obstáculos para a investigação das leis da natureza humana. Defendia que causas naturais e definidas determinam as ações humanas. Preocupava-se com a diversidade cultural e com a igualdade existente na humanidade. A diversidade para Tylor é o resultado da desigualdade de estágios existentes no processo de evolução. Uma das tarefas da antropologia seria estabelecer uma escala de civilização, onde de um lado (extremo ou limite) estariam as nações européias, do outro lado (extremo ou limite) estariam as tribos selvagens. Esta concepção estava dentro do contexto da Origem da Espécies de Charles Darwin com seu evolucionismo unilinear.

A idéia geral de que a cultura desenvolve-se de maneira uniforme teve como resultado uma escala evolutiva discriminatória (etnocentrismo europeu ocidental).

Stocking (1968): Criticou Tylor por deixar de lado toda a questão do relativismo cultural, o fato de não reconhecer os múltiplos caminhos da cultura.

Franz Boas (1858-1949): Atribui à antropologia duas tarefas: A reconstrução da história dos povos ou regiões particulares e a comparação da vida social de diferentes povos, cujo desenvolvimento segue as mesmas leis. É considerado o pai do particularismo histórico (escola cultural americana), o qual preconiza que cada cultura segue os seus próprios caminhos em função dos diferentes eventos históricos quqe enfrentou (abordagem multilinear da teoria da evolução).

Alfred Kroeber (1876-1960): Defende as seguintes idéias (dentre outras) em seu artigo “O Superorgânico”:
A cultura atua sobre o homem.
Graças à cultura a humanidade distanciou-se do mundo animal.
O homem é um ser acima de suas limitações orgânicas.
Embora as funções vitais sejam comuns a toda a humanidade, a maneira de satisfazê-las varia de uma cultura para outra. Há uma grande variação em um número pequeno de funções vitais (diversidade cultural).
A herança genética não tem nada a ver com as ações e pensamentos.
Todos os atos humanos dependem inteiramente de um processo de aprendizado. O homem criou o seu próprio processo evolutivo.
Nenhum outro animal tem toda a terra como o seu habitat, apenas o homem conseguiu esta proeza.
Superando o orgânico, o homem de certa forma libertou-se da natureza.
O homem ao adquirir cultura perdeu a propriedade animal, geneticamente determinada, de repetir os atos de seus antepassados. O homem adaptou-se ao meio.

Há uma crença popular de que as qualidades são mais ou menos adquiridas graças à transmissão genética. Exemplo: “Tenho a física no sangue”. (frase dita por alguém porque o seu avô era físico); “tenho jeito para a música”. (Frase dita por alguém porque seu pai é músico).

Cesare Lombroso (1835-1909): Criminalista italiano que relacionou a aparência física com tendência para comportamentos criminosos (foi considerada verdade científica e justificativa para as diferenças raciais). O resultado foi discriminações raciais e sociais.

O homem é o resultado do meio cultural em que foi socializado.
A manipulação criativa do patrimônio cultural é que permite as inovações e as invenções.
Não basta a natureza criar indivíduos altamente inteligentes, é necessário colocar ao alcance desses indivíduos o material que lhes permita exercer a sua criatividade de uma maneira revolucionária.
A cultura é um processo acumulativo, resultante de toda a experiência histórica das gerações anteriores. Este processo limita ou estimula a ação criativa do indivíduo.
A existência do homem depende tanto da invenção do arco e da flexa como de outras tecnologias modernas. (Sem as suas primeiras invenções ou descobertas, hoje consideradas modestas, não teriam ocorrido as demais).
Nem todos os instintos humanos foram suprimidos. Exemplo: o bebê que busca o seio materno e suga por instinto. Porém, muito cedo, tudo o que a criança fizer não será determinado por instintos, mas pela imitação dos padrões culturais da sociedade em que vive. Enquanto os instintos têm uma uniformidade, os padrões culturais têm diversidade.
Tudo o que o homem faz, aprendeu com os seus semelhantes e não decorre de imposiões originadas fora da cultura.
Através da comunicação oral a criança vai recebendo informações sobre todo o conhecimento acumulado pela cultura em que vive (Observação e invenção). Uma criança e um bebê chimpanzé agem iguais até um ano de vida, depois desta idade agem completamente diferente. O que falta ao chimpanzé não é a capacidade de observação e invenção, mas a capacidade de comunicação.
A comunicação é um processo cultural.
A linguagem humana é um produto da cultura, que depende de um sistema articulado de comunicação oral.

Idéia sobre a origem da cultura:

como o homem adquiriu este processo extra-somático denominado de cultura que o diferenciou de todos os animais e lhe deu um lugar privilegiado no planeta? Isso se deu devido a alguns fatores, tais como:
Cérebro modificado.
Visão tridimensional.
Utilização das mãos (habilidade manual).
Bipedismo (posição ereta).
Desenvolvimento da inteligência humana.
Cérebro mais volumoso e complexo.

Claude Lévi-Strauss afirma que a cultura surgiu no momento que o homem convencionou a primeira regra, a primeira norma (a proibição do incesto).

Leslie White afirma que a passagem do estado animal para o humano ocorreu quando o cérebro do ser humano foi capaz de gerar símbolos. Para ele toda cultura depende de símbolos. White afirma que “é o exercício da faculdade de simbolização que cria cultura e o uso de símbolos que torna possível a sua perpetuação. Sem o símbolo não haveria cultura, e o homem seria apenas animal, não um ser humano. O comportamento humano é o comportamento simbólico. Uma criança do gênero Homo torna-se humana somente quando é introduzida e participa da ordem de fenômenos super-orgânicos que é a cultura. E a chave deste mundo, e o meio de participação nele, é o símbolo”.

“Todos os símbolos devem ter uma forma física, pois do contrário não podem penetrar em nossa experiência, mas o seu significado não pode ser percebido pelos sentidos. Ou seja, para perceber o significado de um símbolo é necessário conhecer a cultura que o criou”. (L. White)

Segundo estas opiniões, a cultura apareceu de repente, num dado momento, como um verdadeiro salto da natureza para a humanidade. Isso não difere muito da posição da Igreja Católica Apostólica Romana quando afirma que “o homem adquiriu cultura no momento em que recebeu do Criador uma alma imortal, a qual foi atribuída ao primata no momento em que Deus considerou que o corpo do mesmo tinha evoluído organicamente o suficiente para tornar-se digno de um alma e, conseqüentemente, de cultura”.

A ciência diz que a natureza não age por saltos repentinos, e que o salto da natureza para a cultura foi contínuo e incrivelmente lento.

O homem não é apenas o produtor da cultura, mas também, num sentido especificamente biológico, o produto da cultura. A cultura desenvolveu-se simultaneamente com o próprio equipamento biológico que caracteriza a espécie humana, ou seja: bipedismo, volume cerebral, uso das mãos e cultura.

2 comentários:

geovani zarpelon disse...

Compartilho com a idéia de que superamos nossa dimensão animal. Não pretendo desta forma negligenciar essa dimensão. É fato que somos constituídos de células e estruturas comuns a vários outros seres, mas com incríveis diferenças. A mais incrível, na minha opinião, é a possibilidade de inscrição da cultura no corpo, o corpo entendido enquanto matéria-prima de inscrição simbólica. Como discutio em seu texto, os animais nascem animais. Nós não nascemos seres humanos, e sim se tornamos humanos. Se você está vivo é porque seu corpo foi marcado e cifrado. Um dos maiores exemplos contemporânes que encontrei é um movimento que se iniciou na Inglaterra, em que as pessoas abstem-se do sexo. Eles se denominam 'assexuados', e dizem não gostar de faer relações sexuais e alguns afirmam serem virgens.
Neste ponto temos que cuidar para não sair do determinismo animal para o determinismo social. Para não cometer tal aporia, resta-nos escolher o que fazer com essas marcas, pois creio que o esforço esteja em não torná-las determinantes. "Não importa o que fizeram comigo, e sim o que eu faço com o que fizeram de mim", disse Sartre. Neste momento, incluo aqui algumas considerações feitas por um amigo sobre minha opinião: "O que realmente importa à indagação é: até que ponto as marcas e cifras exercem seu poder também sobre nossas escolhas acerca do que fazer com elas próprias, as marcas? Até que ponto faço com o que fizeram de mim, aquilo que fizeram comigo?"

Professor Jorge Schemes disse...

Prezado aluno, tanto o determinismo animal quanto o social são extremos, prefiro ficar com a ética aristotélica do meio termo, pense isso na dimensão ética. Penso que é justamente essa dimensão que é determinante, pois a ética utilitarista, onde os fins justicam os meios, não serva para nossas relações e inter-relações como animais sociais, criadores de símbolos e significados para nós mesmos, para nossa existência e para o mundo que nos rodeia. O humano no ser é o produto da cultura na qual estamos inseridos, bem como o animal no ser. Na realidade não somos o que desejamos de fato, mas também não estamos entregues a um determinismo cultural, pois temos criatividade e vontade, e é justamente a vontade que governa a natureza humana.

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