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quarta-feira, 26 de abril de 2006

CAPACITAÇÃO



REFLEXÕES SOBRE CAPACITAÇÃO

Por: Jorge Schemes

Projetar significa tentar quebrar um estado confortável para arriscar-se. Todo projeto supõe rupturas com o presente e promessas com o futuro. Todo projeto implica em detectar um problema e tentar resolvê-lo. Todo projeto implica em trabalhar em equipe e não apenas em grupo. Geralmente, um estado cognitivo confortável esconde falhas e deficiências, por isso todo projeto produz um conflito com o estado confortável e visa promover outro estado. Todo projeto implica em comprometimento com seus atores e autores. Há uma diferença qualitativa entre envolvimento e comprometimento. A origem epistemológica da palavra projeto está no verbo “projectu”, o qual é o particípio passado do verbo “projectare” que significa lançar para frente.
Precisamos diferenciar o significado da palavra capacitação e da palavra formação. Capacitação tem a ver com aprimoramento dos conhecimentos já existentes, fazer compreender, conceber habilidades e inteirar-se. Por outro lado, formação tem a ver com escolarização, constituição, produção e edificação. A formação vem antes da capacitação, porque não é objetivo da capacitação dar conta das deficiências na formação. Capacitar tem a ver com melhoria ou aprimoramento de habilidades que levem a melhores resultados. Formar envolve a formação básica de boa qualidade como condição essencial para o desempenho de qualquer atividade. Há várias razões para formar ou capacitar educadores, mas antes é fundamental identificar as necessidades de capacitação. O desempenho subentende as limitações e as habilidades das pessoas, que servem de indicadores de aspectos que precisam ser melhorados. Quantificar, qualificar e avaliar as necessidades, levando em consideração que a avaliação deve ser compreendida como um processo linear e não pontual. Deste modo a capacitação envolve aspectos tais como: limitações e habilidades, plano de trabalho pessoal e em equipe, plano de trabalho institucional. Os conteúdos da capacitação precisam objetivar o desenvolvimento pessoal e aquisição de outras habilidades. Os conteúdos podem ser genéricos e teóricos, enquanto os métodos podem ser específicos e práticos.
É importante considerar algumas diretrizes básicas para a elaboração de eventos de capacitação. Primeiramente é preciso respeitar normas e princípios da instituição promotora, como também cumprir uma legislação específica (se for o caso), elencar objetivos e definir ações. Deste modo, as diretrizes envolvem princípios, legislação, objetivos e ações. O planejamento evita o erro da improvisação, pois todo planejamento envolve objetivos. Há três eixos que precisam estar presentes em todo projeto de capacitação, são eles: eixo administrativo; eixo pedagógico e eixo financeiro. Vejamos cada um mais de perto:
1. Eixo Administrativo: Envolve a organização do evento e a coordenação administrativa. É o responsável por promover as condições ideais para a realização do evento, às condições ideais de transporte, hospedagem, alimentação, etc. objetiva a diminuição dos custos operacionais, controle normativo e burocrático, bem como a administração de pessoal, de material e racionalidade externa e interna.
2. Eixo Pedagógico: Visa traçar os objetivos do projeto, bem como as ações e os objetivos pedagógicos do evento. Tem o poder decisório sobre os conteúdos e os recursos tecnopedagógicos. Deve elaborar a organização das atividades pedagógicas, a carga horária e as estratégias de aprendizagem. Em relação ao pessoal docente deve definir os professores (peça de ouro do evento), os materiais, a infra-estrutura de apoio pedagógico, a ação educativa (conhecimento/criatividade/iniciativa).
3. Eixo Financeiro: Responsável pela gestão dos recursos patrimoniais e aplicação dos recursos financeiros, controle de gastos e prestação de contas, e captação de recursos. A capacitação deve ser trabalhada pensando na otimização dos recursos.
Como fundamentação teórica para as atividades pedagógicas propomos o materialismo histórico de Karl Marx (1818-1883). A Proposta Curricular de Santa Catarina (PCSC) possui esta fundamentação e pode servir de subsídio. Nesta concepção Marx tenta explicar a sociedade e o homem no contexto do trabalho (nas lutas de classes). Na escola, o tipo de cidadão que se deseja deve estar de acordo com a PCSC. Para Marx o homem é um ser na sua totalidade e deve fazer uma análise crítica dos conhecimentos. Assim, em educação não podemos pensar em partes ou fragmentos. O eixo das discusões precisa estar pautado pela PCSC, porque sua abordagem envolve a dialética, que dá a idéia de um processo sempre em movimento não permitindo que o conhecimento seja fechado. Também analisa o homem e a sociedade em sua historicidade fornecendo uma visão da sociedade na ótica do trabalho. A concepção de aprendizagem é histórico-cultural (Vygotsky). A pergunta que surge é: como se processa a aprendizagem? Segundo esta concepção é por meio da interação com outros. Por essa razão não podemos pensar em capacitação sem interação. O docente precisa estar em consonância com a PCSC. O que justifica tal preocupação é que há um pressuposto da materialidade sobre a relação homem/conhecimento, pois a formação da mente, bem como a formação do homem é considerada dentro de uma contextualidade histórico cultural e social. Deste modo os passos de aprendizagem e desenvolvimento constituem-se em uma unidade dialética para compreender a unidade entre teoria e prática. O aprendizado se dá nas relações do sujeito com os outros sujeitos, e o professor atua como mediador (facilitador). Esta concepção de aprendizado pressupõe que a prática está embasada na teoria.
Quanto a organização do trabalho docente, é fundamental que tenha como encaminhamento metodológico a Teoria da Atividade de Alex Leontiev, e esteja embasado na filosofia de Vygotsky. Uma capacitação fundamentada na Teoria da Atividade tem como requisito a elaboração de conceitos através dos conteúdos trabalhados. Faz-se necessário questionar: Como materializar a Teoria da Aprendizagem? Quais os objetivos da aprendizagem? O critério básico está na premissa de que a ação de aprendizagem é sempre do aluno e não do professor. Os objetivos precisam ser organizados de acordo com a justificativa do projeto. O objetivo não pode ser apenas de ensinagem. A problematização deve estar centrada nos seguintes questionamentos: o que motiva o aluno a aprender? Qual o conceito de motivação? Como o professor pode motivar o aluno a aprender? O que é de interesse dos alunos? Cabe ao professor motivar e despertar o interesse do aluno em aprender, isso significa que a atividade de aprendizagem não é algo solto, sem critérios e sem intencionalidade. O conteúdo não é deixado solto, há uma proposta. As ações de aprendizagem devem estar subsidiadas pela Teoria da Atividade. O foco de toda capacitação é a unidade entre teoria e prática. Outro questionamento se faz necessário: o que é uma ação de aprendizagem? A Teoria da Atividade deve contemplar quatro eixos: 1. Objetivos de aprendizagem; 2. Problematização e motivação; 3. Unicidade entre teoria e prática; 4. Ações de aprendizagem. Desta maneira a função da escola é oportunizar a apropriação e a elaboração dos conceitos científicos como meio do exercício da cidadania.
Segundo a teoria de Vygotsky sobre a Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), o momento de aprendizagem do aluno é um movimento dialético, pois o sujeito já possui conhecimentos (nível de desenvolvimento real), aquilo que ele ainda vai conhecer (apreender) são os conceitos científicos (nível de desenvolvimento potencial). O professor deve atuar na ZDP criando problemas e motivando seus alunos a superá-los e a elaborarem os conceitos científicos. Deve provocar situações para que o aluno crie conceitos científicos. A avaliação não pode se pontual, precisa ser do processo de ensino (prática docente) e aprendizagem (aluno). O professor também precisa avaliar sistematicamente a sua prática pedagógica. A avaliação precisa ser da unidade entre teoria e prática. Desta maneira o objetivo final de toda capacitação deveria ser o de melhorar a qualidade do ensino na base e desafiar seus alunos a elaborarem os conceitos científicos levando em consideração as dimensões de tempo e espaço, bem como as relações sócio-culturais.

segunda-feira, 24 de abril de 2006

POLÍTICAS LOCAIS



GLOBALIZAÇÃO, GOVERNABILIDADE
E PODER LOCAL
(UMA REFLEXÃO ÉTICA)

Por: Jorge Schemes

Há uma crise na administração social e na governabilidade ampla e geral. Há necessidade urgente de um processo de amadurecimento da sociedade, e um dos caminhos é por meio de uma educação pública de qualidade. O processo de mudanças é constante, há instabilidade e insegurança. Vivemos uma era de mudanças profundas, porém, temos que privilegiar alguns eixos, não dá para analisar todas as mudanças. Qual é o cenário das transformações? Qual o contexto de tantas mudanças? Vivemos num tempo de flexibilidades e simplificações. Há necessidade de ações mais equilibradas e que atendam as necessidades humanas.
As mudanças tecnológicas são profundas. Se não entendermos as mudanças tecnológicas, não entenderemos os problemas e situações da sociedade atual. Nem sempre o óbvio é percebido. Nos últimos 30 anos houve uma aquisição de conhecimentos técnicos que superou os conhecimentos adquiridos e desenvolvidos em toda história da humanidade. Estamos no centro de um furacão de mudanças avassaladoras. As mudanças tecnológicas atingiram a informática, as telecomunicações, a biotecnologia e a produção de novos materiais (base material dos produtos).
Rever o óbvio é necessário muitas vezes. Em apenas dez anos a capacidade de informática foi multiplicada por cem, houve um ritmo de aceleramento assustador. Uma mudança dramática. Desde Guttemberg houve uma revolução. Mas, o que há por trás da informática? Uma reorganização de símbolos por dois sinais: zero e um, que transformaram nossa era na era digital. Há nomes digitais para números, alfabetos, cores, notas musicais, etc. O conjunto que utilizamos na comunicação pode ser traduzido por 0 e 1 (zeros e uns). Todo o conjunto de conhecimento pode ser enraizado em bases simples de dígitos e se deslocar na velocidade da luz. Toda base de conhecimentos da humanidade está mudando. Por exemplo: uma consulta na enciclopédia e na Internet têm estruturas diferentes, pois navegar na net é navegar em sinapses. Todavia, há segmentos que tem acesso e que não tem acesso as tecnologias. Assim, o próprio conceito de analfabetismo está em constante processo de mudança. Quem é o analfabeto de hoje? Não saber ler não serve mais como referencial, o desconhecimento das novas tecnologias está deslocando os referenciais no seu conjunto. O conceito de tempo não é muito trabalhado, as tecnologias estão mudando com extrema rapidez enquanto o universo cultural em nossa mentalidade é lento. Devemos considerar que as pessoas têm ritmos diferentes, a geração do arquivo geral e dos clipes para organizar a papelada é totalmente diversa da geração digital e digitalizada. Um exemplo disto são os digital boys, eles são conhecidos na Europa como os garotos digitais porque têm um chip implantado no braço e, assim, podem abrir portas, pagar contas, ligar computadores e armazenar dados digitais. Eles implantaram na parte de cima do braço um tubo de vidro ultra-resistente do tamanho de um grão de arroz, que contém um chip, um emissor-receptor e uma antena. Parece o elo que faltava entre o homem e a máquina. Esta mudança causa dor de cabeça, pois somos obrigados a descartar algo que levou anos para ser organizado. É natural a resistência às mudanças tecnológicas, pois há um conflito constante entre estas mudanças e as mudanças biológicas. A mente é muito lenta ao processo de mudanças tecnológicas, há o que podemos denominar de disritmia. Enquanto as tecnologias mudam, as culturas mudam lentamente, as instituições mais lentamente, e o ser humano social é muito mais lento ainda. Todos sabem que devem mudar, mas não mudam. Um exemplo clássico pode ser visto na educação, temos práticas medievais num contexto tecnológico pós-moderno. As instituições culturais não acompanham as mudanças tecnológicas. O mundo pode estar caindo e as pessoas estão preocupadas com status e hierarquia. As transformações tecnológicas e econômicas, dentre outras, andam em ritmos diferentes, há uma disritmia social e uma desconexão do todo. Temos codificações que se deslocaram a frente da modernidade que temos que enfrentar. Se faz necessário uma reconstrução social e uma rearticulação sobre as novas tecnologias. Deve haver uma reorganização social para as novas tecnologias, e neste aspecto a educação é a ferramenta principal.
Em apenas dez anos as capacidades de telecomunicações são multiplicadas por mil. Do cobre para a fibra ótica a capacidade foi multiplicada por um milhão. A informática revolucionou as bases do conhecimento, que hoje pode ser definido como um fluído em movimentos de partículas atômicas que viajam na velocidade da luz (conceito de conectividade). O conhecimento não é mais uma coisa papável, mas um fluído tecnológico dentro de um conceito de macrocosmos e microcosmos (ampliar e depois reduzir). O microcosmos da matéria é uma reprodução do espaço infinito (visão de mundo). A cosmovisão do conhecimento vem sofrendo mudanças desde a idade média (Galilei, Copérnico, Descartes, Darwin, Freud, dentre outros). As mudanças são constantes. Os valores foram e são mudados. O próprio conceito de ser humano e de mundo está em constante mudança. Hoje a informação navega em ondas e na velocidade da luz. A informação e a conectividade são essenciais nas formas como trabalhamos. As informações e conhecimentos se tornaram centrais na economia e por outro lado trafegam na velocidade da luz. Há empresas que estão correndo contra o tempo para cobrar pedágio da informação, porque ter hegemonia significa controlar os suportes e a passagem da informação. As questões que devemos levantar são: onde estamos neste processo? Qual é ponto de referência? Quais as implicações biopsicosociais e econômicas destas mudanças?
Diante da tecnologização social há um aproveitamento da mão de obra barata. A espacialidade empresarial tradicional foi descentralizada. Hoje basta uma salinha com telefone e Internet. Há uma disritmia das instâncias sociais. Por exemplo: hoje a pesca oceânica é uma verdadeira depredação, pois os navios pesqueiros estão conectados aos satélites que identificam as rotas de cardumes (é um matadouro); o futuro dos peixes poderá ser a extinção total. A pesca tradicional permitia um equilíbrio biológico, hoje, com a pesca digitalizada (novas tecnologias) ficou mais barato pescar e os peixes ficaram mais caros. Com o aumento de barcos pesqueiros equipados com estas novas tecnologias, poderá haver um esgotamento das reservas naturais e a inevitável extinção dos peixes. Há um matadouro oceânico movido pelo modelo econômico regido pelo mercado, o que gera a competitividade e a concorrência, o que justifica o lema: porque se eu não pescar outro pescará. As novas tecnologias estão contribuindo para destruir sistematicamente as reservas de vida marinha. Não há equilíbrio entre oferta e procura. Na falta de evolução cultural, institucional e jurídica, a tecnologia se torna brutal. Esse desnível radical não se deve ao liberalismo, mas as novas tecnologias. Na Índia, por exemplo, há jovens que vendem um de seus rins ao preço de 800 dólares e depois esse mesmo rim é vendido no mercado negro a 8.000 dólares. Quem faz isto? Isso é feito por gente “educada”, doutores de universidades em países ricos. Essa contradição ética explosiva é um problema ameaçador para a humanidade. Trata-se de um capitalismo animalesco (por favor, não ofenda o animal) onde o mais apto (poderoso) sobrevive. O problema ético que se impõe está dentro de um contexto de diversidade de opiniões. Há os que são contra e os que são a favor, os de direita e os de esquerda, há religiões diferentes e cada um defende os seus direitos e interesses. Há uma confusão de valores. Há um interesse em produzir por produzir, em defender a tecnologia pela tecnologia. O que falta é um referencial ético de mudanças, pois tudo está muito relativizado. A cultura do ter se sobrepõe a do ser. A lacuna ética precisa ser preenchida, pois a ética é uma atitude positiva em prol de valores e respeito à sociedade. O nível do valor ético individual deve ser organizado a um nível social. Há a necessidade de organizar um sistema socialmente organizado numa estrutura ética. A ética tem que estar organizada ao nível de um sistema social. Os cidadãos precisam ter capacidade socialmente organizada e pensar as coisas em forma de organização social. Dependendo da estrutura social as pessoas usarão um código de ética (ética situacional). O fato é que há um motor de transformações extremamente poderoso que gera uma disritmia social e causa profundas rupturas e diferenciações (a tecnologia). Enquanto isso, os governos, as organizações e instituições estão mais preocupadas com relatórios do que com os seres humanos.
Na corrida capitalista para ganhar dinheiro, muitas vezes a ética é pisoteada. Hoje há programas governamentais em vários países para o desenvolvimento de novos vírus letais aos seres humanos, trata-se de projetos para a criação de armas biológicas. O lixo atômico ou resíduos nucleares (Plutônio e Urânio enriquecido) são um legado para os próximos trinta mil anos devido a radioatividade. Não há uma fiscalização rígida sobre a entrada e a saída de material radioativo. Há um mercado negro de material atômico em operação, o qual acaba causando um desnível dos problemas que envolvem este tema e a forma como estamos nos equipando. O pior de tudo é que a mídia apresenta o que é banal e o que realmente importa não é apresentado.
Está ocorrendo uma transferência de responsabilidades. Há uma fragmentação da família porque as crianças estão perdendo seu referencial doméstico. A periferia da família (vizinhos, tios, primos), a semifamília, se afastou. Os próprios apartamentos são construídos para a atomização da família, e as crianças perdem o referencial. Brincar na rua, nem pensar, pois é mais fácil ficar na frente da TV, do computador ou do videogame. Com tudo isto, o referencial de escola também está se perdendo. Muitas vezes o convívio com amigos se limita a estar na frente de um videogame. Não há políticas públicas que permitam uma infra-estrutura de lazer e favoreçam a prática de esportes. Em Toronto (Canadá) há muito mais parques e campos de futebol do que no Brasil. Com a falta de opções para o lazer e a cultura, um dos resultados para a população infanto-juvenil na busca de identidade é a formação de gangues. Precisamos repensar a sociedade, a forma de estrutura social. O modelo de família apresentado na TV é atomizado, reduzido a pai, mãe, um filho e a TV como babá. Com isso a dimensão social é reduzida. Precisamos resgatar e ampliar as dimensões sociais, o universo social. Um dos impactos da transformação tecnológica é a desarticulação no tempo e no espaço. A tevê é a grande chupeta que é dada à criança desde cedo. Segundo estatísticas, a média mundial é de que a criança verá 150 mil anúncios publicitários durante a vida e lerá apenas seis livros ou menos. Há empresas especializadas em elaborar publicidade para crianças de oito meses com o propósito de prepará-las e torná-las simpatizantes do produto apresentado, acostumando-a com cores e formas. Na Holanda há um anúncio de que haverá um determinado tempo de publicidade na programação, para que a pessoa possa ter o direito de escolher e desligar a televisão naquele período. O fato é que as escolas de marketing usam técnicas de manipulação das pessoas por meio da publicidade, a qual vende uma imagem e fantasias. Grande parte dos produtos anunciados desvia energias e necessidades afetivas para o produto anunciado. Desta maneira, necessidades afetivas são substituídas por produtos. Imaginemos o que ocorreria se o poder da mídia fosse usado para incentivar a solidariedade? Entender a comunicação, a mídia e seu controle é um fator fundamental para entender os valores e a formação de valores na nossa sociedade. A verdade é que esta publicidade paga por cada um de nós nada mais é do que uma idiotização social. O controle pela comunicação hoje está em bases globais e não mais nacionais. O espaço de informação objetiva e relevante na mídia é cada vez menor. Apresentadores falam bem de determinados políticos em seus programas e recebem dinheiro destes políticos. Em uma edição da revista americana Times Bill Gates aparece na capa, todavia a Times é editada pela Wernner, da qual Gates é sócio. A mídia e a informação se globalizaram, e outras áreas também, como as finanças (a economia). Porque tanto a mídia como as finanças lidam com a informação. Atualmente cerca de 435 bilhões de dólares são gastos por ano com publicidade ao redor do mundo. Hoje o dinheiro circula ao redor do mundo em sinais magnéticos. Por um lado a economia se globaliza, enquanto por outro os instrumentos econômicos nacionais não. A globalização existe em alguns aspectos, principalmente na mídia e na economia, por outro lado as nações mais ricas estão se fechando cada vez mais.
Com tantas mudanças o que está ocorrendo é um processo de reorganização de espaços de trabalho e uma redefinição de funções no espaço de trabalho. Há uma necessidade urgente de repensar a organização do Estado e as práticas políticas. O espaço global cria necessidades de âncoras locais e exige soluções regionais. Há um paradoxo entre globalização e localização. Uma das maiores necessidades globais é superar o impacto do desequilíbrio social entre ricos e pobres. Considerando que o capitalismo é um bom sistema de produção, mas um mau sistema de distribuição de renda, podemos dizer que é um sistema capenga. Por um lado favorece a produção, mas causa desigualdade social. No Brasil há muito trabalho apesar do desemprego, e não é uma multinacional qualquer que irá solucionar o problema do desemprego. Emprego é uma coisa, trabalho é outra. As pessoas podem tirar o seu emprego, mas não a sua capacidade de trabalhar. O capitalismo produz, mas não redistribui, e isso causa uma distância cada vez maior entre ricos e pobres. Não há mais novas situações, o que há é um processo de transformações ou mudanças permanentes. Esse processo gerou uma flexibilidade na administração, ou gestão flexível. Devemos evitar o erro de adotarmos simplificações ideológicas. O que precisamos é mudar o caleidoscópio e ver o conjunto das imagens que estão diante de nós. A comunicação e as novas tecnologias são vitais para a transição do futuro, por isso a nossa atitude frente às novas tecnologias é muito importante. Contudo, independente de nossa atitude, as novas tecnologias estão aí e causarão mudanças. Por essa razão, como educadores, é fundamental acessar as informações significativas da mídia. Saber selecionar o conteúdo informativo e educar para desenvolver a capacidade crítica sem se afogar nas informações. O preparo social da educação é para uma sociedade para o conhecimento.
Devemos criar possibilidades de transformações locais, dentro de um sistema político local e de uma reorganização do sistema de mídia, ou seja, promover uma mídia minimamente democratizada. Como cidadãos e como sociedade civil devemos lutar pela democratização da mídia. Diante de tantas transformações e mudanças constantes estamos caminhando para uma forma diferente de organização das atividades sociais. Há uma verdadeira guerra pelo espaço político e devemos lutar para construir o espaço local com articulações locais. Quanto mais a sociedade se organizar para em espaços locais para resolver os problemas locais, mais força política, econômica e social ela terá. Há necessidade de criar uma sociedade em rede, a qual vai contra a idéia de níveis hierárquicos na sociedade em pirâmide. A tendência é criar um nível cada vez mais horizontal, um Estado muito mais horizontal. Por exemplo, na Suécia 78% da economia local fica no município, enquanto que no Brasil e média está entre 7% a 15% de investimentos. A solução está numa política local, não há soluções setoriais, é preciso desenvolver os projetos de maneira integrada e localizada. Há urgência de um movimento social integrado para buscar soluções por meio de articulações locais integradas com forte fundamentação ética. A política no Brasil precisa voltar à dimensão de cada cidadão e não permanecer na dimensão de uma classe política dominante, porque na realidade o Brasil nunca mudou de sistema político e nunca rompeu com a cultura dos coronéis, apenas se modernizou, pois a política é a mesma.

quarta-feira, 19 de abril de 2006

POLÍTICA E RELIGIÃO




EM NOME DE DEUS?!

Por: Jorge Schemes

O mandamento diz: “Não tomarás o santo nome do senhor teu Deus em vão, porque o senhor não terá por inocente aquele que tomar o seu santo nome em vão”. (Cf. Êxodo 20:7). Quantos crimes e atrocidades contra o ser humano já foram perpetrados em nome de Deus? A história da humanidade nos revela as mais fanáticas atitudes de pessoas, governantes e nações que se pautaram pelo pseudoprincípio religioso de que estavam agindo sob a justificativa de um mandado divino, de uma revelação especial do próprio Deus. Nessa vertente e por esse viés encontramos os registros mais desumanos e anti-humanos de crimes cometidos contra a nossa espécie e contra o que há de mais humano no ser (a imagem e semelhança de Deus manifestada no rosto).
Todavia, o discurso político-religioso de líderes que norteiam e justificam suas ações usando o nome de Deus não é apenas coisa do passado medieval (idade das trevas), mas ainda está presente na pauta da fala de líderes como Bin Laden, Sadan Hussein e George Bush. O fundamentalismo fanático cega o pensamento racional, crítico, coerente e fundamentado na consciência filosófica. Esse fanatismo está fundamentado em dogmas (verdades inamovíveis), e questionar o dogma de um discurso fundamentalista é questionar o próprio Deus. Esses líderes que se fazem donos da verdade revelada e se apropriam das revelações divinas, também se colocam eles mesmos como emissários de Deus e se julgam no direito de falar e agir em seu santo nome. Nos bastidores desta prática está a pretensão medieval e ultrapassada de um Estado teocrático, a qual coloca em questão a legitimidade de um Estado democrático de direitos tornando-se uma forma de governo neoabsolutista.
É justamente nessa direção que a pretensa democracia Norte Americana caminha, pois o presidente George Walter Bush acredita piamente que foi Deus que lhe deu a missão de bombardear o Afeganistão e o Iraque, e ao que tudo indica o próximo da lista é o Irã. Bush crê cegamente que na qualidade de enviado iluminado por Deus ele tem o direito legítimo de agir em nome deste Deus. Bush declarou recentemente que é movido por uma missão que lhe foi dada por Deus. Em pleno século XXI estas palavras parecem ecos de um discurso medieval. Talvez estejamos presenciando um novo fato histórico, um verdadeiro retorno, ou ao menos uma tentativa de retorno ao absolutismo medieval, onde o soberano era considerado a própria encarnação do divino dentro de um modelo político e social no qual não havia cidadãos, mas apenas súditos. Diante destes fatos fica a pergunta temerária: qual será a próxima revelação de Deus ao Presidente George Bush? Vamos torcer para que o Brasil não esteja na “lista divina”, mas se estiver, temos a esperança de imunidade, afinal, dizem por aí que Deus deve ser brasileiro.

Jorge Schemes – Teólogo e Cientista Religioso – Professor de Filosofia da Educação na ACE, Joinville, SC.

terça-feira, 18 de abril de 2006

JOINVILLE...



QUALIDADE DE VIDA?

“Agora é hora de trabalhar, produzir, gerar emprego, renda, impostos, crescimento, desenvolvimento, qualidade de vida...”, estas são as palavras do Excelentíssimo Governador Luiz Henrique da Silveira em matéria publicada no jornal A Notícia no dia 04 de abril de 2006 referindo-se a instalação da Universal Leaf Tabacos em Joinville. Definitivamente há uma contradição muito grande nesta visão de futuro, pois está mais do que comprovado por inúmeros estudos científicos que o tabaco é prejudicial não só para a saúde física do ser humano, mas também para os cofres públicos, uma vez que os impostos arrecadados com o fumo não são suficientes para cobrir os gastos com a saúde pública dos cidadãos que adoecem e morrem em decorrência do uso do cigarro. Todavia, o que mais me chamou a atenção na matéria publicada no AN Especial foi o interesse da Universal Leaf Tabacos em investir em programas sociais e em programas educacionais. Não nos deixemos enganar como cidadãos, se pensarmos como súditos certamente veremos nessa atitude um grande favor, mas devemos pensar como cidadãos, porque o que realmente está por trás de tal interesse é uma poderosa estratégia de marketing. Segundo o prefeito Marco Tebaldi, “Joinville tem o segundo melhor índice de desenvolvimento humano (IDH) do Brasil”, e do ponto de vista neoliberal, a vinda da Universal Leaf Tabacos pode até agregar um pseudovalor econômico, contudo em se tratando de qualidade de vida, quando o assunto é o tabaco, o que realmente acontece a nível mundial é um grande projeto de morte, porque segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) quatro pessoas morrem por minuto ao redor do mundo em decorrência de doenças causadas pelo fumo, o que torna o tabagismo a principal causa de morte evitável no planeta. E agora Joinville entra para o mapa mundial do processamento de fumo sendo mais uma cidade colaborada deste projeto de morte e desumanização a nível mundial. Será que em troca de algumas centenas de empregos vale a pena transformar a cidade das flores com sua reputada qualidade de vida na cidade do fumo? Será que realmente vale a pena, do ponto de vista humanista, colaborar e participar de um projeto de morte, que mais parece um genocídio silencioso? Será que poderíamos classificar tal investimento como sendo promotor de qualidade de vida?


Jorge Schemes
Técnico Pedagógico na GEECT – Joinville, SC.

ÉTICA E CIDADANIA



ÉTICA E CIDADANIA

Por: Jorge Schemes


Cada vez mais se faz necessário pensar e produzir materiais didáticos que abordem os temas: ética e cidadania, educação e orientação sexual, prevenção ao uso indevido de drogas e prevenção à violência dentro das unidades escolares. O desafio que se apresenta aos educadores é de: como trabalhar a interlocução de temas tão relevantes com crianças e adolescentes? Evitar os extremos já é um bom começo. Estes extremos envolvem atitudes conscientes ou não de repressão e autoritarismo (onde as crianças são oprimidas e “pisoteadas”), e, por outro lado, liberdade absoluta e irrestrita (onde crianças de três anos mandam nos de trinta). É muito difícil realizar um trabalho ético se há uma via de mão única. Portanto é fundamental romper o desafio e estabelecer uma interlocução com equilíbrio, bom senso e ética. Sendo assim, é necessário estabelecer uma interlocução simbiótica com nossos alunos. Faz-se necessário olhar os nossos alunos não como meros expectadores, mas como protagonistas dos valores, da paz, da construção histórica de uma sociedade mais humanizada, digna, justa e solidária. Diante disto a pergunta que levantamos para reflexão é: como podemos produzir referenciais (paradigmas) que sirvam de suporte para promover uma cultura de paz na escola? Como estabelecer referenciais que sejam capazes de transformar e melhorar o convívio na escola? Primeiramente, antes de qualquer outra coisa, faz-se necessário uma compreensão da ética e da cidadania como norteadores gerais e como os fundamentos sólidos para uma “leitura” de homem e de sociedade.
O objetivo maior de todo projeto ou programa que pretende promover a paz na escola envolve a discusão da violência. É imperativo repensar a finalidade da escola e promover o movimento de construção permanente da cultura para a paz. Para tanto, precisamos trabalhar questões éticas universais, como por exemplo, a Declaração Universal dos Direitos Humanos; uma ética universal de defesa ao meio ambiente e de defesa à vida como essência da existência. Diante disto, vale questionar: qual o papel da educação? Qual o papel da escola? Até que ponto poderá ser modificada a situação?
Precisamos considerar que há coisas que não mudam por meio do discurso apenas, mas por meio de ações, tendo as crianças e os adolescentes como protagonistas. Dentro deste contexto, surge outro questionamento: qual o papel da educação e que contribuição ela pode dar? Algum tipo de contribuição ela sempre dá, resta ter consciência de qual. Há necessidade de pensar (teoria) e fazer (prática) uma escola de qualidade, diferenciada, com um conhecimento que permita o direito ao pensamento e propicie uma leitura crítica da realidade. Geralmente não gostamos do autoquestionamento, mas devemos fazê-lo por meio da seguinte pergunta: Como estamos trabalhando com o conhecimento? As aplicações do conhecimento não podem estar dentro de uma dimensão de conhecimento fechado, isolado da realidade, pronto e acabado, nem tão pouco dentro de uma dimensão de conhecimento com sentido utilitarista imediato. Devemos perceber que a realidade mais próxima está numa simbiose com a realidade mais ampla e com um conhecimento aplicável. Por essa razão, a discusão da violência precisa levar em consideração alguns aspectos, tais como: seu vínculo com a sociedade dentro de uma realidade mais próxima e mais ampla, ou seja, a crise da violência é local, mas também global. A violência é a manifestação de uma realidade mais ampla, por isso faz-se necessário o cultivo de um pensamento crítico, de uma leitura e cosmovisão filosófica de perguntas para tentar encontrar respostas. Nosso compromisso, enquanto educadores, deve ser o de desenvolver uma educação que leve a pensar e analisar criticamente a sociedade. Uma pergunta que pode ser feita para iniciar esta discusão é: que tipos de relações estão sendo postas ou impostas na sociedade? Esta questão não é pertinente apenas a uma área do conhecimento fragmentado no currículo, mas deve estar agregada no fundamento epistemológico de cada disciplina. É necessário pensar a educação para uma cultura de paz como um tema multidisciplinar, e não apenas como um projeto isolado e fragmentado. O objetivo é causar uma mudança na formação de valores e na subcultura arraigada da violência. Esse é um processo lento que deve ser contínuo e sistemático. Essa mudança deve estar na raiz da constituição de valores. Não podemos ignorar a importância da teoria, pois a fundamentação teórica é a base para a construção de ações transformadoras. Ter estrutura teórica é fundamental para saber o caminho que queremos seguir e onde desejamos chegar. Quanto mais profunda for nossa fundamentação teórica mais intencional será a nossa prática.
Um bom começo para esta fundamentação pode ser a ética contemplada nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN’s). A ética nos PCN’s é um tema transversal, o qual deve envolver aspectos que contemplem a justiça, a cidadania e a solidariedade, o respeito mútuo e o diálogo. Outras propostas apresentam a ética e a cidadania como fundamentos que orientam as concepções de homem e de sociedade, como por exemplo, a Proposta Curricular de Santa Catarina (PCSC). É fundamental entender que a ética envolve a reflexão de aspectos que fundamentam a antropologia, a sociologia e a pedagogia. A ética é o fundamento dos temas transversais (PCN’s) e dos temas multidisciplinares (PCSC), por essa razão não pode ser fragmentada a um tema, mas é a essência dos temas porque permeia a todos. Os temas multidisciplinares incorporam um conjunto de temáticas a serem abordadas no currículo, mas não compõem novas áreas de conhecimento, todavia têm importância equivalente a das áreas existentes.
Como fundamentos da ética entendemos a vivência regulada por normas ou procedimentos específicos de uma determinada época. Há duas perspectivas de abordagem da ética: uma primeira perspectiva é idealista; enquanto uma segunda é norteadora. Ética não pode ser confundida com moral, embora alguns estudiosos considerem ética e moral como sinônimos. Contudo, penso que a ética é mais subjetiva, uma vez que se propõe a fazer uma reflexão sobre o sujeito moral (ético) como uma das garantias da condição humana, mas também envolve reflexões de normas, limites e princípios universais. A ética é normativa porque estabelece normas que determinam o “dever ser” de nossos sentimentos, atos e comportamentos, por essa razão a ética é intrínseca (de dentro para fora). Assim, ética é uma reflexão crítica da moralidade, pois julga as diferentes morais, estabelece normas e limites, envolve a “práxis”, objetiva a construção do sujeito crítico, não alienado e consciente de sua autonomia moral, serve de referência para todos, estabelece princípios universais e generalizantes de respeito, liberdade, autonomia e vida, tem o compromisso com a universalidade da construção histórica da humanidade e se dá o direito de criar valores e de ser a forma de julgamento das diferentes manifestações morais. Por outro lado, a moral envolve valores e práticas sociais de grupos distintos, pois há diferentes morais para diferentes grupos. A moral possui uma interdependência com a ética, estabelece juízos de valor, se manifesta nos costumes, tem aspecto de intersubjetividade (norteia regras de conduta), marca a conduta individual (comportamento), envolve decisões, ações e práticas sociais de grupos.
Diante da pluralidade, da diversidade e da multiculturalidade, a ética precisa ter uma sustentabilidade e permear as ações da escola. Daí surgem outros questionamentos aparentemente óbvios: por que educadores devem se preocupar e se ocupar com assuntos éticos? O que a escola tem a ver com isto? Um dos motivos é porque a incivilidade e o anonimato criam situações de violência social. Mas, é possível abrir espaços para que a escola trate de assuntos que envolvam ética e civilidade? O que é mais barato? Prevenir ou remediar? No que diz respeito a ética, a civilidade, a responsabilidade social e a cidadania é mais lógico prevenir do que remediar. Todavia, questionamos: de fato a escola cuida destes aspectos?
A lógica da criminalidade elevada e da violência dentro da escola segue a seguinte corrente: incivilidade, irresponsabilidade social, anomia (princípio de agir sem lei) e anonimato. Estes fatores geram impunidade, acarretada também pela falta de investimento na educação como um todo dentro de um modelo econômico que não prioriza uma distribuição de renda que supere a desigualdade social. O que a escola faz diante disso tudo? Se não faz nada, o que poderia fazer? Penso que a escola não pode ser omissa na formação intencional de hábitos de decência, valores éticos, inteligência emocional, autonomia moral e excelência intelectual, bem como no desenvolvimento da cidadania, civilidade e responsabilidade social. Mas novamente surge a pergunta: como a escola pode trabalhar tudo isso? Num primeiro momento usando o fascínio que ela exerce para desenvolver os valores e a cidadania nas crianças. As diferentes teorias (disciplinas conteudistas) não causam impacto, não mudam o comportamento dos alunos. Se não se ensina cidadania com teorias, então o que pode ser feito? Ter consciência de si mesma como um paradigma já é um bom começo. A escola é um modelo de comportamento para os alunos, eles aprendem cidadania com o que a escola é, ou seja, uma instituição disciplinada e disciplinante. Como a escola funciona e quais são suas regras levam o aluno ao aprendizado da cidadania e de valores. O que a escola é ela transmite para seus alunos. A escola é um modelo vivo, ou para o bem ou para o mal, quer tenha consciência disto ou não. Assim sendo, a escola pode ensinar pelo que ela é como modelo vivo. Daí surge outro questionamento: o que a escola pratica como instituição?
No que diz respeito a construção moral e ética dentro da escola, os alunos aprendem mais participando, porque para crianças e adolescentes é mais forte ser ator do processo do que mero expectador, é mais forte participar de vivências que envolvam dilemas éticos do que ouvir discursos vazios e muitas vezes incoerentes. Por esta razão a escola precisa abrir espaço para discusões éticas e dilemas éticos e promover o protagonismo juvenil. Uma outra metodologia viável é trazer pessoas para dar um testemunho de vida, para contar seus dramas e levar os alunos ao mundo real. Também são válidos passeios e visitas com objetivos de discusão, reflexão e introspecção, bem como o incentivo ao voluntariado. A escola como organismo ético vivo precisa dar condições aos alunos para reflexão de questões e dilemas éticos. Os alunos precisam ser protagonistas neste processo. Uma escola que não é séria, que não tem auto-estima, não educa para valor nenhum. Uma escola séria se faz pela vontade do povo, pela vontade da sociedade de ter escolas boas e sérias que formem valores de maneira intencional e construam cidadãos conscientes.
Diante do exposto, fazem-se necessários alguns questionamentos: como podemos compreender a ética e a cidadania no contexto escolar? Como podemos fundamentar o desenvolvimento dos temas multidisciplinares: educação sexual, educação preventiva e educação para a convivência? Como a escola pode se organizar para uma prática que promova a construção de uma cultura de paz em contraposição a subcultura da violência? Primeiramente devemos refletir e considerar que há diferentes níveis e graus de violência. A violência tem que ser analisada no contexto do macrocosmo social e do microcosmo individual, no âmbito público, institucional e privado. Considerando que a violência se dá no contexto das relações interpessoais, faz-se necessário perguntar: como se dão as relações dentro da escola? Entre os professores? Entre os alunos? Ao definir o que é violência devemos considerar todas as respostas. A violência pode se manifestar como força física, força política, força espiritual e força psíquica. O fato é que diante das manifestações de violência, a escola deve se posicionar de maneira clara e objetiva como promotora de uma educação para a convivência e o respeito. É necessário contextualizar as manifestações da violência considerando os aspectos biopsicosociais e espirituais, dentro de uma cosmovisão de globalidade e localidade. Por exemplo: No aspecto biológico devem ser levadas em consideração as necessidades básicas para a sobrevivência, envolvendo situações de pobreza, fome, miséria, etc; No aspecto psicológico as estruturas psíquicas (estrutura neurótica, psicótica e perversa), as quais têm uma influência importante; No aspecto social devem ser analisadas as condições ou não para o exercício da cidadania; E no aspecto espiritual os valores éticos e morais. Devemos partir da premissa de que se a subcultura da violência foi construída historicamente ela pode ser desconstruída por uma cultura de paz e respeito. Todas as instituições socializadoras: família, igreja e escola, juntamente com órgãos públicos e Organizações Não-Governamentais (ONG’s) devem promover esta cultura de paz. A convivência escolar e o respeito devem ser construídos dentro de uma relação em rede, numa perspectiva que contemple a diversidade e favoreça a construção de uma ética e valores universais.
Outra dimensão que precisa ser avaliada é a que estabelece os pressupostos da competitividade e da exclusão, princípios geradores de violência. Por essa razão o conceito de relação precisa ser abordado e fundamentado numa perspectiva histórico-crítica. É necessário privilegiar os aspectos biopsicosociais, principalmente os aspectos dialéticos e críticos. São as relações que se estabelecem que definem um grupo como tal. As relações foram se estabelecendo entre as pessoas e os bens desde a pré-história passando pela revolução industrial e chegando até nossos dias, uma época histórica marcada pela presença constante da tecnologia digital. O modo de produção capitalista é definido nas relações de dominação e exploração. Portanto, passa a ser central hoje um modelo de relação, a relação da exclusão. Com as constantes transformações tecnológicas a maneira de se produzir as coisas e a maneira de se executar os serviços sofreram uma transformação profunda. Dentro deste contexto, as relações de dominação e exploração da produção capitalista sofreram uma queda, dando lugar a uma relação de exclusão, onde as pessoas são simplesmente excluídas do trabalho, excluídas da produção.
O neoliberalismo defende a bandeira da exclusão. O desenvolvimento ocasionado pelas novas tecnologias gera a lei da competitividade, o que pressupõe a liberdade do mercado. Todavia, a competitividade exige a exclusão. Todo processo é atrelado à competitividade, este é o pressuposto do neoliberalismo. Sendo assim, um dos resultados é um crescimento assustador da brecha entre ricos e pobres, apesar de uma produtividade mundial que chega a mais de quatro mil dólares per capta (por pessoa) ao ano, o que seria suficiente para que todos vivessem com conforto e dignidade. Esta má distribuição de renda dá origem ao quarto mundo, o mundo dos excluídos, da extrema pobreza, dos miseráveis. Nessa política da lógica da exclusão predomina o clima de indiferença anti-solidária, o que torna a imensa massa sobrante de seres humanos em objetos descartáveis vivendo como lixo da história. Outro resultado é o forte senso de individualização do social e um endeusamento do individual que cria um desemprego planejado e legitimado por teorias psico-sociais antiéticas. Desta maneira as pessoas são individualmente responsabilizados por uma situação econômica adversa e injusta, onde o social não existe ou é um faz de conta. Esta é uma ética individualista, pois se trata de uma microética em detrimento de uma macroética. Se isto não bastasse, é terrível constatar que além da exclusão social há uma exclusão dos saberes, porque o conhecimento científico de matriz eurocêntrica mostra desconfiança ao conhecimento espontâneo das pessoas comuns. A idéia iluminista de que o conhecimento científico dissipa a ignorância objetiva transformar as pessoas numa multidão de cientistas. Como escola e como educadores há a necessidade de reabilitar o saber popular que muitas vezes só está fundamentado na oralidade e na vida prática cotidiana. Na verdade o menosprezo pelos saberes populares esconde uma discriminação e uma tentativa de exclusão ou ao menos a supressão de um determinado tipo de saber. Esta atitude pode ser denominada de epistemicídio. Enquanto as práticas diferentes e alternativas de conhecimentos forem excluídas e os saberes populares forem impedidos de se legitimarem, enquanto o saber acadêmico e técnico-científico de matriz institucional eurocêntrica for hegemônico, dificilmente poder-se-á falar numa sociedade verdadeiramente democrática e pluralista, tanto política como cultural e economicamente. Na realidade essa relação de exclusão é apenas uma substituição das antigas relações de dominação e exploração. Na legitimação da exclusão a vítima é o próprio excluído. Na cosmovisão neoliberal não há espaço para o social, pois o ser humano é definido como indivíduo ou alguém que é um, mas não tem nada a ver com os outros. O indivíduo se torna o único responsável pelo seu êxito ou pelo seu fracasso, assim, quem vence é aprovado e aceito no sistema, e quem é vencido é excluído. Essa é a gênese do quarto mundo, o mundo dos excluídos. Portanto, faz-se necessário a adoção de novos caminhos, de novos modelos, de novos paradigmas que levem a propostas e atitudes humanizantes e éticas que conduzam a novas relações, fundamentadas no diálogo e no respeito à diversidade. Relações que sejam pluralistas, democráticas, participativas, solidárias, cidadãs e éticas.


Referência Bibliográfica:

SAWAIA, Bader (org.). Psicologia Social: As artimanhas da Exclusão – Análise psicosocial e ética da desigualdade social. Rio de Janeiro: Ed. Vozes, 1999.

domingo, 9 de abril de 2006

DIÁLOGO COM OS SABERES



DIÁLOGO DE SABERES

Por: Jorge Schemes

Cada educador (professor) deve se assumir como intelectual; deve pensar e dar o que pensar. Temos desafios enormes em relação à educação. O analfabeto contemporâneo é aquele que não sabe “ler” o que se passa nos meios de comunicação. A maioria dos professores tem como referência os meios de comunicação e não a crítica aos meios de comunicação. O momento mais verdadeiro dos telejornais talvez seja o que é veiculado nos intervalos comerciais. A tarefa que temos é profunda enquanto intelectuais, pois é a de produzir pensamento próprio, crítico. A questão fundamental é descolonizar o pensamento de matriz européia-ocidental e técnico-científico. Há múltiplas globalizações em curso e não apenas uma como é apresentado na mídia. Há uma globalização hegemônica, mas há globalizações de resistência, de movimentos sociais legítimos. Todavia, o que presenciamos nos meios de comunicação de massa são falas hegemônicas européias. Há uma lógica da racionalidade hegemônica que separa as ciências humanas das ciências naturais. Mais do que o debate multidisciplinar faz-se necessário um debate de saberes que extrapole as linhas da academia e do conhecimento científico. A cultura eurocêntrica tem grande responsabilidade pela subalternidade de outros saberes, outras culturas. Por meio de um projeto de morte e extermínio e pela colonização e exploração da América Latina, a “racionalidade” eurocêntrica produziu um pensamento subalterno.
Quem realmente pôs em curso a revolução tecnológica que está ainda em curso? Esta revolução é parte das relações sociais e de poder. A ciência e a técnica se tornaram mitos (deuses) das sociedades tecnocráticas. Precisamos de uma análise holística de nossas abordagens. É preciso ver que a globalização é um processo muito mais profundo e antigo. Voltemos nosso pensamento para o contexto histórico do século XV. Até essa data se falava de uma história regionalizada. Faz-se necessário desconstruir o pensamento hegemônico eurocêntrico que nos formatou ideologicamente. Os grandes modelos teóricos nos quais está fundamentado o pensamento racional ocidental remontam a Grécia antiga. Esparta, Atenas e Alexandria eram centros culturais que ficavam no oriente. Somente no século XII chegou uma tradução de Aristóteles a Paris. Até o século XV a Europa não possuía centralidade, o que a tornou central foi a “descoberta” da América, a partir de 1492 se forma a modernidade pela colonização e exploração dos outros povos, de suas riquezas e conhecimentos. Diante disto é fundamental uma desconstrução deste pensamento que monopoliza e submete a cultura da América Latina. Desde o início a modernidade é acompanhada de colonização (modernidade colonial). A desconstrução deste pensamento é fundamental para a construção de outro modelo alternativo. É preciso que como educadores desenvolvamos uma visão antropológica de respeito à diversidade. Um exemplo da racionalidade de matriz eurocêntrica é o discurso que é feito em torno da escassez de água pelo Banco Mundial, com o intuito de justificar a privatização da água. O viés tem que ser outro. Devemos perguntar como as culturas indígenas, por exemplo, cuidam da água? Porém, a racionalidade imposta pelo modelo eurocêntrico não favorece um diálogo com outros saberes. É necessário um diálogo entre os saberes para instaurar outro modelo de desenvolvimento que seja de fato sustentável. A mídia apresenta uma “economização” da natureza e da riqueza. Mas afinal, o que é riqueza? O dinheiro não é riqueza, mas aquilo que está presente na natureza é a riqueza, por exemplo: entre o dinheiro e a água a riqueza está na água. Há uma visão reducionista de preservação ambiental que está dentro de um modelo eurocêntrico que separa a natureza dos povos e de seus diferentes saberes. Precisamos desconstruir o saber despejado sobre nós pelo pensamento racional tecnocrático ocidental.
O princípio de igualdade e oportunidades deve fundamentar as políticas públicas em educação. Faz-se necessário criar novos conteúdos, novos espaços e novas oportunidades de ensinagem, e um dos caminhos pode ser a educação não-formal. Educação e sustentabilidade devem andar juntas. Para que isto seja possível é preciso ressignificar o conhecimento, considerar os diferentes saberes dentro desta nova proposta educacional. Repensar a humanidade. A premissa: “pensar globalmente e agir localmente” precisa ser acrescida de outra que diz: “pensar localmente e agir globalmente”. Devemos reivindicar nosso direito a pensar e agir localmente. Não podemos aceitar subordinação e subjugação dos diferentes saberes ao conhecimento imposto pela racionalidade eurocêntrica. Para tanto o educador precisa pensar e refletir sobre si mesmo e ter vontade de mudar, ressignificando sua humanidade. Isso implica em reelaborar e ressignificar símbolos e palavras. Recuperar a nossa capacidade de sonhar e imaginar um futuro possível, e devemos fazer isso unidos, juntos.
O objetivo da educação deve ser o de alcançar a satisfação e a felicidade tendo como fundamento a ética da alteridade e não a coisificação da vida. É imperativa a recuperação da solidariedade humana. Precisamos ser seres humanos íntegros com desejo de construir um mundo melhor. Devemos levar a seguinte reflexão para a educação: Como será este mundo? Será apenas o resultado de um acúmulo de capital? Para um projeto diferente é preciso ressignificar a humanidade e romper a relação do ser com as coisas, buscando recuperar a relação do ser com os diferentes saberes.
Os diferentes saberes apresentam para a vida diferentes sabores. Nossa busca da realidade deve ser feita provando-a, tocando-a e não apenas pensando ou refletindo o que já foi pensado. Hoje, mais do que nunca é preciso uma fusão da ética e do conhecimento. Precisamos superar a proibição de ser, de pensar e de sonhar. O humano é habitado pela linguagem e pelo pensamento; é habitado pela potência de ressignificar o mundo; pela potência política e ética da diversidade e da alteridade. Precisamos como educadores reativar as palavras e os símbolos que favorecem o diálogo entre os diferentes saberes e a perda de sentidos da existência humana. Neste contexto está o diálogo de saberes, onde outros são absolutamente outros em seus diferentes saberes. Esta política da diferença está arraigada em algum movimento social. Educação neste contexto é estar em um estado de busca, e pedagogia é reconstruir reaprendizagens como uma viagem interminável.
A natureza íntima do humano é a sabedoria e particularmente os sentimentos, somos seres capazes de amar e imaginar um futuro cuja gramática, as palavras, os verbos, os símbolos e tudo o mais que caracteriza esta humanidade promova a desconstrução e reconstrução do humano no ser e a libertação de um pensamento colonizado pela racionalidade instrumental e capitalista. Os monopólios internacionais precisam ser questionados por um currículo que favoreça o diálogo e a valorização dos diferentes saberes, das diferentes manifestações culturais, povos, religiões, etc. A tecnologização da vida que causa distância e solidão pode ser superada por meio de uma pedagogia do encontro, do rosto e da alteridade. Para tanto é preciso repensar o pensamento, e estabelecer um projeto emancipador de construção de diálogo com os diferentes saberes. É preciso imaginar outras didáticas, outras metodologias e outros currículos que envolvam a complexidade da racionalidade ambiental. Precisamos educar para um processo de reconstrução, de reencantamento da vida, do mundo e do próprio ser humano. Esse é um processo de transformação interna e externa, de pensar, sentir e agir. Temos o direito ao pensamento crítico. Se o nosso trabalho parecer em vão devemos considerar que, embora não sejamos ainda o que desejamos ser, também não somos mais o que éramos.

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